O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou em depoimento à Polícia Federal (PF) que houve uma “demora injustificada” no trabalho de fiscalização do Banco Master e disse que os dois servidores suspeitos de cooptação resistiam a apresentar os relatórios detalhados sobre o assunto. Ele disse que se posicionou internamente contra a venda do Master ao Banco Regional de Brasília (BRB) porque achava que a operação iria gerar um rombo no banco público do DF — o que efetivamente ocorreu.
Galípolo afirmou ter feito reuniões “em clima de tensão” e “com palavrões” para cobrar providências do então chefe de supervisão bancária, Belline Santana, e do seu adjunto, Paulo Sérgio Neves Souza. Segundo o presidente do BC, essas reuniões tinham o objetivo de solicitar um relatório com indícios de fraudes financeiras para encaminhamento ao Ministério Público Federal, mas o trabalho não era entregue. A defesa de Belline afirmou que o depoimento “não apontou qualquer indício concreto de irregularidade no exercício das atribuições funcionais”, enquanto a defesa de Paulo Sérgio não se manifestou.
O presidente do BC foi ouvido pela PF na última terça-feira (6), na condição de testemunha dentro do inquérito que apura suspeitas de que o banqueiro Daniel Vorcaro havia cooptado os dois servidores do BC. A investigação já detectou que Belline foi contratado para uma consultoria por uma pessoa ligada a Vorcaro e que Paulo Sérgio vendeu um terreno ao cunhado do banqueiro. Além disso, diálogos do celular indicam que eles davam orientações e uma espécie de consultoria informal a Vorcaro para a defesa do Master perante o BC.
Galípolo foi chamado para prestar depoimento depois que Paulo Sérgio afirmou à PF que o presidente do Banco Central tinha segurado o envio de relatório ao Ministério Público com os indícios de crimes. Em seu depoimento, o presidente do BC relatou que a situação foi o inverso e disse que Paulo Sérgio costumava afirmar que os documentos apresentados pelo Master eram suficientes para explicar a situação.
Ele afirmou ainda que quem descobriu primeiro as inconsistências nas carteiras foi o diretor de fiscalização Ailton de Aquino, que era o superior hierárquico de Belline e Paulo Sérgio.
O presidente do BC disse à PF que insistiu com os dois para ter acesso aos documentos com os fluxos financeiros das carteiras de crédito consignado vendidas pelo Master ao BRB, mas afirmou que eles não apresentavam o material e apenas defendiam a regularidade do banco de Vorcaro.
Galípolo, então, relata que precisou criar uma equipe de auditoria com outros integrantes do BC e sem a participação de Paulo Sérgio ou Belline, porque o trabalho de fiscalização estava “demorando injustificadamente”.
O BC acabou vetando a venda do Master ao BRB e liquidou o banco de Vorcaro no dia 18 de novembro de 2025, quando foi deflagrada a Operação Compliance Zero, que resultou na primeira prisão de Vorcaro.
Nota da defesa
Leia a íntegra da nota da defesa de Belline Santana: “A última peça constante do sistema do STF referente à Pet. 15.504, cujo sigilo foi levantado, é a petição de esclarecimentos protocolada pela defesa do Sr. Belline Santana em 30/09/2026, portanto, é importante destacar que o depoimento do Sr. Gabriel Galípolo chegou ao conhecimento público por outras vias. De todo modo, o depoimento do Sr. Gabriel Galípolo não apontou qualquer indício concreto de irregularidade no exercício das atribuições funcionais do Sr. Belline Santana, limitando-se a generalizações e a referências à atuação de outro servidor do Banco Central do Brasil (‘BCB’). Uma análise mais detida do referido depoimento revela, inclusive, contradições quanto ao escopo da supervisão prudencial e às medidas adotadas pela própria Autarquia. Nesse contexto, chama a atenção que o Sr. Gabriel Galípolo tenha reconhecido a existência de informações que subsidiaram a decisão de liquidar o Banco Master, medida que, por critérios próprios da Diretoria do BCB, inclusive quanto ao momento de sua adoção, somente foi concretizada em 18/11/2025. O mesmo ocorreu com outras entidades supervisionadas vinculadas ao conglomerado, a exemplo da Banvox e da Trustee, cujas liquidações foram decretadas apenas em setembro de 2026, sem qualquer participação do Sr. Belline Santana nessas decisões. A defesa já esclareceu essas circunstâncias na manifestação protocolada em 30/09/2026. Causa estranheza, portanto, que a atuação do corpo técnico do BCB continue sendo objeto de questionamentos, enquanto as decisões e o momento de adoção das medidas de competência da Diretoria da Autarquia permanecem sem o mesmo escrutínio.” As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
