Ícone do site Jornal O Sul

Em fórum com Dilma e Cristina Kirchner, líderes de esquerda da América do Sul fizeram uma autocrítica e analisaram derrotas

Encontro ocorreu em Buenos Aires, que receberá a cúpula do G20. (Foto: Divulgação)

Após 12 anos no poder, Cristina Kirchner foi derrotada por Mauricio Macri na Argentina em 2015. No ano seguinte, Dilma Rousseff foi tirada do poder no Brasil, devido a um processo de impeachment. Nos últimos anos, a esquerda sofreu derrotas importantes, que colocaram fim a um período de liderança política nos dois maiores países da América do Sul.

E foi também sobre esse contexto político desfavorável para a esquerda que ex-presidentes e intelectuais debateram até a última sexta-feira em Buenos Aires (Argentina) – mesma cidade em que, na próxima semana, será realizada a cúpula do G-20, as 20 principais economias do mundo.

“Os partidos já não representam, como antes, os interesses sociais e populares porque estão dedicados ao clientelismo”, avaliou Ernesto Samper, que governou a Colômbia na década de 1990. “Cada vez mais, os partidos se parecem mais com as ideias que as pessoas têm deles, de que não funcionam, que estão corrompidos, e é verdade. Eles se desconectaram dos movimentos sociais, então é preciso recuperar a sintonia.”

“Temos que ser frios e estudar  as virtudes, os erros, os limites, porque temos que nos preparar para uma segunda onda de governos progressistas na região”, defendeu Álvaro García Linera, vice-presidente da Bolívia – único representante, no evento, de um governo de esquerda sulamericana que continua no poder.

O ex-presidente do Uruguai José Mujica, cujo sucessor governa o Uruguai, havia confirmado presença anteriormente, mas cancelou a participação no fórum organizado pelo Clacso (Conselho Latinoamericano e Caribenho de Ciências Sociais), rede internacional que reúne cerca de 600 centros de pesquisa da região.

Sua assessoria de comunicação havia dito que a ausência seguia recomendação médica. Mas, mais tarde, seu grupo político divulgou uma carta assinada por Mujica na qual ele apresentava outros argumentos. Ele comenta que o fórum vinha sendo tratado pelos meios de comunicação como uma “contracúpula”, em oposição à reunião do G20.

Pacto

Primeira a palestrar no fórum, Dilma Rousseff (2011-2016) sugeriu a criação de uma aliança entre todas as oposições e “até com o diabo” para combater o autoritarismo, a perda de direitos e alienação da soberania nacional:

“Há que se que ter, no entanto, uma espinha dorsal, um coração, uma linha antineoliberal e antifascista”, ponderou a petista, bastante aplaudida pelo público. A organização estimou em 50 mil o número de inscritos para o fórum, que em alguns momentos teve ares de comício. Cristina Kirchner, hoje senadora, declarou que as esquerdas precisam se reinventar.

“As consequências do neoliberalismo que impacta negativamente os trabalhadores, os comerciantes, os intelectuais, os pesquisadores, inclusive os grandes empresários, pelas coisas que estão acontecendo em nosso país, nos obrigam a repensar como espaço político de propostas”, argumentou.

A ex-presidente, que neste ano tem evitado participar de eventos públicos, falou em organizar os setores críticos ao governos atualmente no poder na América Latina: “Temos que criar uma frente social-cívico-patriótico que agrupe todos os setores agredidos pelas políticas do neoliberalismo, que não são de direita nem de esquerda. Não pode haver essa divisão, entre os que rezam e os que não rezam, entre nacional e popular.

Sustentabilidade

Durante sua fala, o vice-presidente boliviano Linera elencou lições que ele considera pontos que a esquerda precisa aprender: “Sustentabilidade do crescimento econômico e o fim do paradoxo entre o crescimento econômico e a proteção ecológica”.

Nesse sentido, o senador Gustavo Petro, ex-prefeito de Bogotá e segundo colocado nas eleições presidenciais deste ano na Colômbia, apregoou que a esquerda precisa investir em uma base econômica que respeite a natureza.

“Precisamos sair do extrativismo, insustentável e construtor de uma espécie de ‘política da morte’ no mundo, a fim de começar a construir uma sociedade do conhecimento que seja a base de uma produção diferente, baseada em energias limpas e no uso intensivo da terra para a produção de alimentos. Isso geraria uma opção muito diferente para a América Latina, que até agora se baseou no petróleo, no carvão”, afirmou em entrevista à imprensa.

“O capitalismo à base de energia fóssil nos leva a mudanças climáticas. E uma esquerda que quer construir justiça social sobre a base da produção e exportação dessas matérias primas, na minha opinião, é insustentável porque está ajudando a desgastar as bases da vida no planeta”, completou.

Já o argentino Adolfo Pérez Esquivel, vencedor do prêmio Nobel da Paz defendeu que as esquerdas latinoamericanas pensem no futuro: “Temos que construir a médio e longo prazo e não apenas a reboque das conjunturas. E precisamos repensar os países que queremos”.

Sair da versão mobile