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Em meio a crise energética, Brasil vira novo destino dos sonhos de cubanos, com rota via Guiana

Governo americano não permite a entrada de sequer um litro de petróleo no país. (Foto: Reprodução)

Cristina só faz pensar no Brasil. Primeiro vieram as novelas, que ainda dominam suas lembranças da juventude e construíram a imagem de um país violento, mas farto em comida e infraestrutura. Depois foi Júlio, vizinho de prédio, que deixou Havana rumo a Curitiba há cerca de dois anos.

“Meu sonho é ir para o Brasil. Júlio nos conta que trabalha em um aviário, que recebe mais de US$ 500 (R$ 2.570) por mês, que está feliz.”

Cristina mora em um apartamento em ruínas no centro de Havana com o filho e o marido, carpinteiro experiente que sobrevive fazendo trabalhos por la izquierda no tempo livre. O filho trabalha na construção civil. Juntos, ganham US$ 30 por mês (R$ 154,50).

“Vivemos como você está vendo, não há muito”, afirmou ela, diante da TV de tubo onde assiste “Terra e Paixão”, novela estrelada por Tony Ramos e Glória Pires que fez sucesso no Brasil há três anos.

Desde que os EUA apertaram as regras de imigração e forçaram países vizinhos a exigir visto para cubanos, o Brasil vem se tornando o destino preferencial para quem quer deixar a ilha. Agora, a rota para chegar ao país passa pela Guiana, que não exige visto dos cubanos. Ao desembarcarem em Georgetown, a capital guianense, outros cubanos, com apoio de cidadãos locais, atravessam o país com os recém-chegados até Boa Vista, em Roraima.

Não é uma viagem barata para os cubanos e é bem mais cara do que o trajeto tradicional pelo Panamá. Mas, neste momento, com tantas restrições, é a alternativa menos burocrática para chegar ao Brasil e pedir refúgio.

“Estamos economizando, queremos ir juntos, aqui não há mais nada”, contou Cristina, enquanto servia batata-doce frita com salsichas cruas, um gesto típico da generosidade cubana.

Só com passagens ela calcula gastar US$ 3 mil (R$ 15,7 mil), sem contar o necessário para cruzar a Guiana até Roraima. “Meu irmão está em Sevilha e prometeu nos ajudar.”

País de velhos

Pelas ruas de Havana, é comum encontrar pessoas com parentes no Brasil, especialmente na Região Sul, que parece ser o destino preferencial de quem parte agora. O filho de Miguel, um simpático dono de bar na Cidade Velha, mora em Florianópolis.

“Está feliz, tem namorada, tem emprego, está reconstruindo a vida em um país que é muito especial para nós”, disse, entre um trago e outro de rum.

Pai de três filhos, ele vive com o mais novo. O mais velho está em Moscou, destino popular entre cubanos. A Rússia, como a Guiana, não exige visto.

“Ele não sabe se vai para a Rússia ou para o Brasil, mas aqui não ficará.”

Desde que a situação voltou a se deteriorar, Cuba enfrenta uma profunda crise migratória. Não há números exatos sobre quantos deixaram o país, mas projeções indicam que quase 20% da população se foi em cinco anos, principalmente jovens. Em 2015, o governo estimava encerrar 2025 com 11,3 milhões de habitantes. Em 2024, o país registrou menos de 10 milhões.

Cuba também está se tornando um país de velhos – e não apenas pela emigração. As taxas de natalidade caem ano após ano e, há quase uma década, o crescimento populacional é negativo. Mais cubanos morrem ou deixam o país do que aqueles que nascem.

“Quem vai querer ter filhos? Mal conseguimos nos manter, que dirá alimentar mais uma boca”, contou Merced, de 35 anos, que trabalha como guia em Havana. “Agora estou mais preocupada em encontrar morfina para que meu pai tenha uma morte digna do que em ter filhos.” As informações são do jornal O Globo.

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