Em meio a uma crise financeira que já fez o peso se desvalorizar 50% desde o início deste ano, o governo da Argentina deve eliminar entre dez e 13 de seus 19 ministérios. A informação é de veículos da imprensa de Buenos Aires.
Ao menos dois dos três principais assessores do presidente Mauricio Macri também devem cair. São eles o secretário de coordenação interministerial, Mario Quintana, e o secretário de coordenação de políticas públicas, Gustavo Lopetegui. Anteriormente, o chefe do Executivo chegou a chamar publicamente Quintana e Lopetegui, bem como o seu chefe de gabinete, Marcos Peña, de “os meus olhos e a minha inteligência”.
De acordo com os jornais “Clarín” e “La Nación”, Macri passou o sábado reunido com a sua equipe na Quinta de Olivos, a residência oficial da Presidência da República. Na pauta, um plano de reestruturação do governo e um pacote de novas medidas econômicas, que deve ser anunciado já nesta segunda-feira.
Dentre as propostas políticas, está a conversão dos ministérios de Ciência e Tecnologia, Cultura, Energia, Agroindústria, Saúde, Turismo, Ambiente, Trabalho e Modernização em secretarias de outras pastas. Do lado econômico, deverá ser feito um forte ajuste fiscal.
Crise
Com altos déficits fiscal e de conta corrente, a Argentina é um dos países mais afetados pela valorização do dólar no mercado internacional. O movimento já obrigou Macri a pedir um socorro de US$ 50 bilhões ao FMI (Fundo Monetário Internacional) e a trocar parte de sua equipe econômica.
Antes disso, já haviam perdido os seus cargos o ministro da Produção e o presidente do Banco Central – o órgão monetário também acabou elevando a sua taxa básica de juros, que passou de 27,5% para 60%, índice que conta com o status de o maior do mundo.
Na última quarta-feira, a situação financeira do País se agravou após o presidente informar que havia pedido uma antecipação da ajuda do FMI. O anúncio foi feito sem maiores detalhamentos e acabou sendo mal recebido pelo mercado, o que gerou uma nova corrida contra a moeda argentina, que perdeu 12% de seu valor e agora custa 38 pesos para comprar 1 dólar.
A Argentina já concordou em reduzir seu déficit primário a 1,3% do PIB (Produto Interno Bruto) sob um programa de R$ 50 bilhões com o FMI em junho, gerando protestos de sindicatos. Agora, representantes de Macri prometem mais cortes no déficit antes de viajarem a Washington (EUA), nesta semana, para negociar com o FMI a aceleração da ajuda.
O governo não detalhou sua nova meta de déficit primário ou que medidas espera tomar para estabilizar a moeda depois de uma desvalorização de 16% na semana passada, mas investidores querem ações decisivas.
“O mercado provavelmente vai esperar um orçamento de 2019 que faça uma tentativa crível de eliminar o déficit primário”, disse Jeffrey Lamoreaux, analista senior na Fitch Solutions.
Ele disse que os mercados esperavam que Macri, que tomou posse em dezembro de 2015 depois de 12 anos de administrações de esquerda, implementasse uma combinação de tarifas de exportação para a agricultura com redução de subsídios e gastos sociais.
O lobby agrícola tem sido um pilar de apoio para Macri enquanto ele tenta impulsionar a competitividade da terceira maior economia da América Latina. O poderoso setor agrícola apoiou sua coalizão pró-mercado tanto nas eleições presidenciais de 2015 quanto nas eleições legislativas do ano passado.
O retorno das tarifas de exportações marcaria uma grande reviravolta. Macri retirou as taxas sobre milho e trigo logo depois de assumir. Ele também começou a reduzir gradualmente as taxas sobre soja e derivados, que estão no coração da disputa entre a ex-presidente populista Cristina Fernandez e o setor agrícola.
Conversas sobre medidas para taxar o milho e o trigo da Argentina apoiaram preços nos futuros internacionais de grãos na bolsa de Chicago na sexta-feira, disseram operadores. A Argentina é a terceira maior exportadora de soja e milho do mundo.
Dois ex-assessores econômicos do governo Macri sugeriram que tarifas de exportação seriam uma opção efetiva de curto prazo. “Eu nunca acreditei nesta medida como uma opção permanece, mas isso é um incêndio”, disse Carlos Melconian, que chefiou o estatal Banco Nacion no primeiro ano do mandato de Macri, durante uma entrevista na televisão, referindo-se à queda do peso e crescentes preocupações sobre a habilidade da Argentina de pagar sua dívida.
Luciano Cohan, o ex-subsecretário para programação macroeconômica sob Macri, escreveu no Twitter que uma tarifa de exportação de 5% sobre todos os produtos, não apenas os agrícolas, resultaria em um ganho de 3,5 bilhões a 4 bilhões na arrecadação no próximo ano.
