Cerca de mil argentinos em Florianópolis (SC) esperam há mais de uma semana para voltar ao país de origem sem ao menos saber quando isso será possível. Com o terminal rodoviário na cidade fechado em decorrência da pandemia de covid-19, causada pelo novo coronavírus, só uma empresa de transporte coletivo faz o trecho para a Argentina. Um decreto do governo argentino impede a chegada de veículos ao país ao menos até terça-feira (31).
A notícia pegou de surpresa o advogado argentino Mauro Anagrafe, 26, que estava de malas prontas para embarcar ontem (27) em um ônibus para Buenos Aires. Em Florianópolis desde 12 de março, ele se comunica diariamente com os parentes para tranquilizá-los. “Acabei de falar com a embaixada, e nem eles sabem o que fazer. O decreto pode se estender por mais tempo. Entendo que a situação é complicada e que as medidas estão sendo adotadas são boas para o meu país. Tento não perder o otimismo”, disse Mauro.
Em sua página no Facebook, o Consulado da Argentina em Florianópolis (SC) emitiu um comunicado aos argentinos: “Uma das medidas que mais afetam no exterior é a impossibilidade que os turistas argentinos voltem ao nosso país neste momento”. A estimativa do governo do país é de que até 15 mil argentinos ainda estejam no exterior. Até as 16h (horário de Brasília) de ontem, a Argentina já tinha registrado 589 casos de pessoas infectadas pelo coronavírus e 13 mortes.
Em Florianópolis, proprietários de hotéis e hostels, inclusive, deixaram de cobrar diárias de turistas estrangeiros nos últimos dias por causa do impasse. “Conversei com o dono de um hotel que abriu mão da cobrança da diária porque o dinheiro desses argentinos está acabando”, disse Ricardo Pastrana, subcomandante da Guarda Municipal, que tem acompanhado o drama dos hermanos.
Alguns argentinos que estavam em situação de rua foram abrigados em um espaço improvisado pela Prefeitura de Florianópolis (SC) para receber 300 pessoas na passarela do samba, com acesso a banho e comida.
Há uma semana, a Guarda Municipal barrou 38 ônibus e vans de turismo vindos do Paraguai, Uruguai e Argentina após restrição de veículos imposta na entrada da capital catarinense como medida para conter o coronavírus. Só aqueles veículos que estavam sem passageiros e que se deslocavam para buscar turistas foram liberados na ocasião.
Cem dias
Alberto Fernández completou seus primeiros 100 dias no governo em 18 de março. Acaba o ciclo que é simbolicamente chamado de período de graça e uma nova etapa começa a partir daqui. O governo da coalizão Frente de Todos, desde o início, defendeu que a Argentina está em crise, em situação de emergência como resultado das consequências do governo Mauricio Macri, que, particularmente, impactou os mais humildes e a economia.
As principais áreas que preocupam são o endividamento e a perda de produtividade. É por isso que todo o esforço do governo foi colocado em duas questões principais: por um lado, a questão da renegociação de uma dívida externa cujo peso na economia nacional se tornou um problema sério após a forte dívida de curto prazo gerada pela governo anterior; e, por outro lado, a seriedade de uma questão social. O país enfrentou 40% de pobreza, desemprego acima de 10% e inflação de 54% em 2019, o que não produziu explosões sociais como aconteceu no Chile e no Equador porque foi canalizado pela política eleitoral.
O problema é que, sendo tão séria a situação, Fernández sabia que não teria recursos suficientes para uma política expansionista clássica do peronismo, nem com amplas margens de manobra para que a tolerância dos credores e a sociedade esperassem para ver como ele os resolveria. Nesse sentido, o governo sabe que tem pouco a inovar, tensionado entre o certo risco de inadimplência e um surto social ou um sério descontentamento político que pode deslegitimar seu governo e até ameaçar a própria democracia.
