Com o acelerado aumento da população idosa e a elevação da expectativa de vida no Brasil, o número de mortes associadas à doença de Alzheimer e a outras demências mais do que dobrou no País em 10 anos, mostra levantamento inédito feito pelo jornal O Estado de S. Paulo com base em dados do portal Datasus, do Ministério da Saúde.
Entre 2012 e 2022, o total de óbitos associados a demências cresceu 107%, passando de 15,6 mil para 32,4 mil – o equivalente a quase quatro mortes por hora. Desse total, 27,3 mil ocorreram por complicações do Alzheimer e as outras 5,1 mil estavam relacionadas a outras demências. A alta foi superior à taxa de crescimento da população maior de 60 anos no País – 40% entre 2012 e 2021, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
As mortes associadas a quadros demenciais costumam ocorrer nos estágios mais graves da doença. “Quando o Alzheimer chega a uma fase mais avançada, depois de 10 a 12 anos de evolução, leva ao imobilismo, à dificuldade de deglutição, condições que provocam infecções pulmonares, engasgos frequentes, infecções urinárias. O Alzheimer em si não mata, mas são essas complicações causadas pelo avanço da doença que acabam levando o paciente à morte”, explica Ivan Okamoto, neurologista do Núcleo de Excelência em Memória (Nemo) do Einstein.
O fato de os pacientes serem idosos e, na maioria das vezes, já conviverem com outras doenças os torna mais vulneráveis a responderem mal a essas complicações. “Geralmente são pacientes frágeis, com muitas comorbidades, com maior risco de quedas com fraturas, entre outros problemas”, diz Rodrigo Rizek Schultz, presidente da Associação Brasileira de Alzheimer (ABRAz) e professor titular de Medicina da Universidade Santo Amaro (Unisa).
“Na fase grave da doença, o paciente começa a ter déficits motores porque há uma atrofia tão grande do cérebro que ele pode parar de caminhar e falar, ter dificuldades respiratórias, ter perda de equilíbrio”, afirma Diogo Haddad, neurologista e coordenador do Núcleo de Memória do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.
Foi o que aconteceu com Benedito Coelho, morto em 2021, aos 83 anos, 12 anos após o diagnóstico do Alzheimer. “No começo, ele tinha só alguns esquecimentos, ficava confuso, se atrapalhava quando dirigia. Depois de alguns anos, ele teve uma convulsão que o deixou mais debilitado, as pernas foram enrijecendo, ele passou a se alimentar por sonda”, conta a filha do idoso, Marinês Terra Coelho, de 59 anos.
Foi o que aconteceu com Benedito Coelho, morto em 2021, aos 83 anos, 12 anos após o diagnóstico do Alzheimer. “No começo, ele tinha só alguns esquecimentos, ficava confuso, se atrapalhava quando dirigia. Depois de alguns anos, ele teve uma convulsão que o deixou mais debilitado, as pernas foram enrijecendo, ele passou a se alimentar por sonda”, conta a filha do idoso, Marinês Terra Coelho, de 59 anos.
Com o agravamento do quadro, o idoso já não saía da cama e precisava de cuidado em tempo integral. “Ficamos muitos anos cuidando dele em casa, mas chegou um momento que a própria médica nos recomendou a buscar uma casa de repouso porque ele teria melhor suporte. A gente ia sempre visitá-lo. Minha mãe ia todos os dias, mas foi uma decisão muito difícil”, conta.
Benedito ainda ficou sob os cuidados da clínica por cinco anos, mas a doença foi progredindo. “Ele tinha frequentemente infecções respiratórias por causa dessa fragilidade. A gente sempre levava para o hospital, faziam o tratamento, mas teve um momento que ele não aguentou mais e morreu por insuficiência respiratória”, diz.
Segundo os especialistas, o diagnóstico precoce das demências é importante justamente para que, com medicamentos e ações não farmacológicas, como atividades físicas, controle de doenças crônicas e reabilitação cognitiva, seja possível retardar ao máximo o avanço da doença.
Assim como no caso de Benedito, a ampla maioria das mortes por demências ocorre a partir dos 80 anos, faixa etária que costuma concentrar os casos avançados da doença. Em 2022, por exemplo, 77,5% das vítimas tinham oito décadas ou mais de vida. Outros 18,4% dos mortos tinham entre 70 e 79 anos, e somente 4,1% estavam abaixo dos 70 anos.
Na análise por gênero, as mulheres representam quase 65% dos óbitos. Estudos internacionais já mostraram que pessoas do sexo feminino têm maior propensão a desenvolver a doença. Além disso, as mulheres costumam viver mais, o que eleva a possibilidade de quadros demenciais.
Segundo os especialistas, a alta de mortes associadas ao Alzheimer e a outras demências é explicada, em partes, pelo aumento da expectativa de vida no País. Nas últimas décadas, com a melhoria das condições sanitárias e os avanços da Medicina, mortes precoces por causas como infecções e doenças cardiovasculares diminuíram, possibilitando que mais pessoas cheguem à terceira idade. Um maior conhecimento sobre a doença e o consequente aumento de notificações de casos e óbitos também elevam os registros. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
