Único dono de empreiteira denunciado na Operação Lava-Jato que foi autorizado pela Justiça a voltar a trabalhar, e na própria empresa, a UTC, o empresário Ricardo Pessoa deseja ser esquecido. Acusado de coordenar a ação de participantes do cartel da Petrobras e autor de delação premiada cujo teor integral ainda está sob sigilo, ele carrega na perna direita uma tornozeleira eletrônica que apita se sair da área onde está autorizado a circular, em São Paulo, entre o apartamento em edifício nos Jardins e a sede da companhia, na Zona Sul da capital. Quando a bateria descarrega, o equipamento também vibra.
Se à primeira vista a condição do empresário parece um martírio, na prática, Pessoa dribla inconveniências para tentar voltar à vida normal. É uma rotina de “sorte”, na comparação com a dos outros executivos presos na Lava-Jato – parte ainda vive atrás das grades, e outra parte está proibida de pensar no antigo ofício, em regime de prisão domiciliar. Já foi autorizado a visitar o pai de 91 anos, em Salvador (BA), e também a frequentar filiais da sua construtora pelo País.
Voltar a trabalhar na empresa que criou foi uma das cláusulas negociadas em sua delação, negociada com o STF (Supremo Tribunal Federal) quando já estava em liberdade. Há pouco mais de um mês, passou a ocupar o cargo de vice-presidente do Conselho de Administração da firma, que comprou da Construtora OAS nos anos 90 e transformaria, nos anos seguintes, em uma importante fornecedora da Petrobras, chegando a ter mais de 26 mil funcionários.
No período em que esteve fora, deixou a gestão da empresa a cargo dos dois sócios. Agora, cuida diretamente da reestruturação da dívida de 1,2 bilhão de reais da UTC com bancos e da implantação do programa de compliance (conformidade de conduta) na empresa. Contratou a mesma consultoria que cuidou da dívida das empresas do grupo EBX, de Eike Batista. (AG)
Empreiteiro envolvido no escândalo da Petrobras comparece todos os dias ao trabalho em sua empresa usando tornozeleira na perna direita

Na prática, Ricardo Pessoa dribla inconveniências para tentar voltar à vida normal. (Foto: Marcos Bezerra/Futurapress)