Relatório divulgado nessa quarta-feira (1º) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) contabiliza quase 6,4 milhões de indivíduos direta ou indiretamente afetados pelas enchentes recordes de maio de 2024 no Rio Grande do Sul. O contingente equivale a 57% do total de habitantes do Estado (11,2 milhões). Já o número de residências com estragos foi superior a 2,3 milhões.
No caso das unidades habitacionais atingidas, o documento – intitulado “Pesquisa Especial Sobre as Enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul (Apers)” – teve por base a avaliação das condições dos imóveis após as inundações. Mais de 55% dos moradores relataram que os seus domicílios sofreram algum tipo de dano estrutural.
Os serviços mais afetados pela maior tragédia da história do Rio Grande do Sul foram o abastecimento de água (66,3%) e os fornecimentos de luz (66,3%) e internet (61,5%), de acordo com os relatos dos entrevistados pelo estudo, que abrangeu 133 municípios. Quase 68% deles também disseram ter sofrido abalos na saúde.
Conforme os indicadores que apontaram a gravidade das consequências do evento climático, 81.272 domicílios (3,5%) foram avaliados como destruídos e 190.253 (8,2%) como muito danificados. “Essas condições de máxima precariedade foram atribuídas a 11,7% dos domicílios”, sublinha o texto anexado aos números pelo IBGE.
Quando as perguntas se referiram aos reflexos do desastre climático nos bairros e arredores, o tipo de impacto mais apontado (62,3%) foi a existência de ruas ou rodovias danificadas, alagadas ou interditadas. Em seguida aparece o acúmulo de lixo e outros resíduos (56,3%), imóveis danificados, destruídos, inundados ou ilhados (54,1%) e interrupção de iluminação pública (53,9%).
Deslocamentos
Após o desastre climático, 922.233 gaúchos (14,6%) mudaram de endereço. As enchentes foram o motivo para 349.366 deles (37,9%), grupo que inclui 71,6% moradores de residências nas quais foram notados danos estruturais devido às enxurradas e 28,3% com renda de até R$ 2 mil por família.
“Esses dados indicam uma concentração de moradores que mudaram de endereço após as fortes chuvas nesses baixos rendimentos, uma vez que na distribuição de renda do total da população, correspondiam a 24%”, acrescenta a pesquisa.
Ainda conforme o IBGE, no total estimado de moradores na área da pesquisa, 24,9% residiam em domicílios nos quais as condições gerais de vida no momento da coleta de dados eram inferiores às do período anterior às enchentes. O índice é maior que o daqueles que moravam em domicílios nos quais foram verificadas melhorias (17,3%). A maioria (56,5%), porém, manifestou a percepção de que a qualidade de vida permaneceu a mesma.
Precaução
Os moradores que declararam conhecimento sobre ações preventivas adotadas para reduzir os efeitos de futuras enchentes somaram 2.438.297 (38,5%). Em resposta à satisfação com os trabalhos de recuperação nas áreas atingidas por enchentes, 2.594.761 (41%) se mostraram favoráveis a tais providências.
Já a análise da renda domiciliar mensal dos moradores durante as inundações indicou que 66,8% do total (4.231 602) estavam concentrados na faixa de até R$ 5 mil. Nas respostas relacionadas ao gênero de nascimento, 51,9% das pessoas declararam-se do sexo feminino e 48,1% do masculino.
Na variável cor ou raça, a maior parte (78,5%) é branca, seguida de parda (14,3%). Os moradores que se declararam pretos chegaram a 6,7%. A classificação etária das áreas da pesquisa, por sua vez, teve índice de 19,5% de moradores com até 15 anos de idade (19,5%), próxima do segmento com mais de 60 anos (20%).
Sobre os efeitos de catástrofe na vida pessoal dos entrevistados, os maiores percentuais são relacionados a saúde mental abalada (67,5%), interrupções na vida social ou no convívio com família e amigos (58,4%). Completa a lista a dificuldade no deslocamento para trabalho ou escola (57,3%).
Os domicílios que ficaram sem condição de serem acessados atingiram 652.107. Nos resgates, os principais meios de transporte utilizados foram o aquático (70%) e o terrestre (34,6%). A pesquisa apontou, ainda, que os voluntários foram maioria absoluta dentre os agentes que atenderam os imóveis residenciais (74,9%), em ranking que teve nas demais posições órgãos oficiais como bombeiros, Forças Armadas e Defesa Civil, todos somando 35,4%.
(Marcello Campos)
