O endividamento das famílias chegou a 80,4% em março de 2026, o maior nível da série histórica da PEIC, segundo a Confederação Nacional do Comércio. O número assusta, mas antes de repetir que “o Brasil está endividado”, vale entender o que a pesquisa está chamando de endividamento.
Na PEIC, “endividado” é quem declara ter algum tipo de dívida ou compromisso a vencer, mesmo que esteja pagando tudo em dia, como cartão de crédito, carnê, empréstimo, consignado e financiamentos. Isso cria um efeito curioso: uma pessoa pode financiar um imóvel em 30 anos, pagar corretamente todos os meses e, ainda assim, aparecer como “endividada” por três décadas. A estatística não está dizendo que ela está em crise, está dizendo que ela tem um compromisso de longo prazo.
Por isso, eu defendo que a conversa pública deveria mudar de eixo. A economia brasileira precisa parar de tratar endividamento como sinônimo de problema e passar a falar mais de superendividamento. Aí sim mora o tendão de Aquiles.
Superendividamento, na lei, é a situação em que o consumidor não consegue pagar o conjunto das dívidas de consumo sem comprometer o mínimo existencial (o básico para viver com dignidade). Não é “ter parcela”. É perder o chão. Um exemplo simples: a pessoa ganha R$ 2.000. A fatura do cartão fecha em R$ 2.500. No mês seguinte, antes de fechar, já está em R$ 2.300 de novo. Isso não é um aperto pontual, é um padrão que vira bola de neve.
Foi para esse cenário que surgiu a Lei do Superendividamento (Lei 14.181/2021), reforçando crédito responsável, repactuação e proteção do mínimo existencial. E esse tema ganhou um capítulo novo em abril de 2026: o STF decidiu que o governo deve revisar periodicamente (ao menos uma vez por ano) o valor do mínimo existencial, que hoje está fixado em R$ 600 por decreto, e entendeu que despesas de crédito consignado precisam entrar no cálculo, porque ignorar consignado distorce a fotografia real do orçamento.
Agora vem a parte que mais incomoda, e que você deve estar pensando.
Por que a gente fala tanto de endividamento e tão pouco de superendividamento, se um é “ter dívida” e o outro é “não conseguir pagar sem sacrificar o básico”?
E por que o sistema permite que alguém com renda baixa tenha acesso a limites e ofertas que, na prática, tornam provável o atraso, o parcelamento eterno e o refinanciamento?
Quando alguém responde “mas é para comprar uma geladeira”, eu concordo. Crédito pode ser ponte para bens essenciais e emergências. O problema é quando a ponte vira armadilha: informação ruim, juros altos, limite que ignora capacidade real de pagamento e rotinas que empurram a pessoa para o rotativo e para o reparcelamento. No fim, isso encarece o sistema inteiro, piora inadimplência e aumenta o custo do crédito para todo mundo, inclusive para quem usa com responsabilidade.
E por que, mesmo com lei, práticas ainda sobrevivem, como juros elevados, reparcelamentos que crescem sem parar e ofertas agressivas para quem já está no limite?
Aqui entra o fechamento que costuma ficar fora do debate, mas que explica por que superendividamento é um problema econômico, não só individual.
Superendividamento ataca o que eu chamo de salário indireto. Não é um valor que cai na conta, mas é aquilo que a gente recebe em forma de serviço público: escola, saúde, segurança, iluminação, transporte, assistência, estrutura da cidade. Isso existe porque impostos financiam bens e serviços coletivos.
Quando a renda vira dívida antes de virar comida, a pessoa corta consumo, atrasa contas, entra em inadimplência, enfraquece a base de arrecadação e pressiona serviços. A economia perde dos dois lados: perde crescimento e perde qualidade de vida.
No fim, endividamento é instrumento. Superendividamento é dano. E enquanto a gente continuar tratando os dois como se fossem a mesma coisa, vamos seguir alarmando com o número errado e tratando tarde demais o problema certo.
* Tamara Rosenblum, pesquisadora na área de finanças e aposentadoria
