Além da questão energética, a expansão da geração eólica no Rio Grande do Sul pode produzir recolocar a Metade Sul na disputa por novos investimentos industriais. A avaliação é de Eric Fernando Boeck Daza, especialista em energia limpa e mudanças climáticas, diante do prognóstico de aproximadamente R$ 10 bilhões em projetos da empresa brasileira Casa dos Ventos no Estado até 2030.
O plano prevê cerca de 2 mil megawatts (MW) de capacidade eólica em operação no território gaúcho. Desse total, cerca de 700 MW devem vir do complexo Torquato Severo, em Dom Pedrito (Região da Campanha), empreendimento estimado em quase R$ 4 bilhões.
Para Daza, a localização dos projetos é tão relevante quanto o volume do investimento. Registros da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) indicavam que, em maio, 52 dos 55 projetos da modalidade com construção ainda não iniciada no Rio Grande do Sul estavam concentrados na Metade Sul. Juntos, somavam pouco mais de 2 mil MW, quase o equivalente a toda a capacidade eólica então em operação no Estado.
A concentração de nova geração pode tornar municípios da Campanha e do Sul do Estado mais competitivos para setores nos quais a eletricidade representa parcela relevante dos custos. Na lista estão indústrias nos segmentos químico, metalúrgico e mineral, bem como de fertilizantes e de combustíveis de baixo carbono.
“Uma região só disputa um investimento depois de entrar no mapa de alternativas do investidor. Energia renovável em escala pode fazer isso pela Metade Sul”, sublinha.
A análise de Daza é respaldada por um currículo que inclui títulos de doutor em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), mestre em Economia pela Universidade do Vale do Sino (Unisinos) e em Gestão de Negócios de Energia pelo Clube Espanhol de Energia. Possui também experiência em projetos e estudos ligados a instituições como o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e Organização das Nações Unidas (ONU).
Combinação de fatores
Ele ressalva que a proximidade aos aerogeradores não torna a eletricidade automaticamente mais barata. O diferencial surge da combinação entre oferta de geração, capacidade de conexão à rede, contratos de longo prazo e acesso a energia renovável em grande volume: “A decisão industrial também depende de água, logística, mão de obra, mercado, financiamento e fornecedores”.
A infraestrutura já existente reforça esse potencial. A Metade Sul abrange o Porto do Rio Grande, produção agropecuária, universidades, disponibilidade de áreas e experiência nas indústrias marítima, portuária e metalmecânica.
No Litoral, o projeto-piloto “Aura Sul Wind” prevê cerca de US$ 100 milhões até 2030 para desenvolver geração eólica offshore (em alto-mar) flutuante, com fabricação e montagem de estruturas na região e uso inicial da energia no complexo portuário. Daza conclui que o principal desafio agora é converter a nova geografia da geração em política de atração de capital produtivo:
“Quando uma empresa investe no Estado porque encontrou vento, o setor elétrico cresce. Quando uma indústria escolhe a região porque encontrou condições energéticas que melhoram a economia do projeto, a estrutura produtiva começa a mudar”.
(Marcello Campos)
