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Engenharia do caos: prêmios para quem mais confunde

O debate público contemporâneo atravessa uma crise profunda. Em vez de espaços orientados pela busca da verdade, da coerência e do convencimento racional, as discussões políticas e econômicas tornaram-se arenas de desgaste psicológico. Nesse ambiente, não vence, geralmente, quem apresenta os melhores argumentos, mas quem domina as técnicas de interrupção, saturação e confusão. O fenômeno descrito por Arthur Schopenhauer como “erística” deixou de ser um vício marginal da retórica para se transformar no próprio método dominante de comunicação política. Vivo fosse, certamente o filósofo alemão se espantaria diante da metabolização de sua teoria em doses cavalares com o advento das redes sociais.

O liberalismo digital, especialmente em suas expressões mais agressivas nas redes sociais, assimilou essa lógica com eficiência impressionante. O objetivo já não é demonstrar, mas impedir o outro de demonstrar. O que se observa é uma avalanche de afirmações superficiais, dados soltos e slogans, disparados em sequência tão rápida que qualquer tentativa séria de refutação se torna inviável. O interlocutor honesto entra em desvantagem porque a investigação exige tempo, enquanto a mentira exige apenas impulso. Os momentos dos debates eleitorais têm sido pródigos no uso dessa tática diversionista.

Essa dinâmica se agrava porque desmontar uma falsidade demanda muito mais energia do que produzi-la. Em um ecossistema dominado pela velocidade, a simplificação emocional sempre circula melhor do que a explicação técnica. O resultado é que o especialista parece inseguro porque pondera, enquanto o charlatão soa confiante justamente porque ignora complexidades. Em vez de melhorar o argumento, conforme tão bem sugeria o Bispo Desmond Tutu, muitos preferem não apenas elevar a voz, mas falsear os fatos, descaradamente.

Outro modo de tornar difícil a vida de quem tenta argumentar racionalmente é o abuso do terreno movediço que se torna o debate. Quando um argumento começa a ser desmontado, muda-se imediatamente o foco. Sai a economia, entra a moral; sai a estatística, entra a experiência pessoal; sai a evidência, entra a provocação. Não existe continuidade lógica, apenas deslocamentos estratégicos destinados a impedir qualquer conclusão estável. O debate deixa de ser construção e vira dispersão. Nesse caso, perdem não apenas os eventuais contendores, mas quem tenta compreender tal algazarra polifônica.

Há ainda a caricaturização deliberada das ideias adversárias. Uma proposta moderada de regulação econômica rapidamente é convertida em “ditadura estatal”; uma crítica ao mercado transforma-se em “ódio à liberdade”. Essa técnica não busca compreender o argumento original, mas deformá-lo até que pareça absurdo. Em vez de responder ao que foi dito, responde-se a uma versão grotesca e fabricada da posição contrária.

Quando até isso falha, resta a ruptura total da racionalidade: ataques pessoais, ironias histéricas, memes e encenações indignadas substituem qualquer encadeamento lógico. O objetivo deixa de ser persuadir; passa a ser produzir ruído suficiente para inviabilizar o pensamento.

O problema mais grave dessa cultura erística é que ela destrói a própria possibilidade de esfera pública racional. Se toda conversa se converte em guerra de desgaste, a inteligência coletiva entra em colapso. A política passa a funcionar como competição de narrativas emocionalmente mais agressivas e não como disputa de projetos racionalmente estruturados.

A pós-verdade não é apenas a circulação de mentiras. É a destruição das condições necessárias para distinguir verdade de manipulação. Nesse cenário, o debate racional se torna um jogo quebrado, no qual quem pensa perde tempo e quem confunde ganha audiência.

Certamente um dos maiores desafios do nosso tempo não é somente combater informações falsas, mas reconstruir uma cultura em que argumentar ainda faça sentido. Se a lógica argumentativa se torna o primeiro cadáver do debate, a democracia inteira começa a apodrecer junto.

(Instagram: @edsonbundchen)

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