Considerada um pesadelo dentro da pandemia de coronavírus, uma infecção conhecida como “mucormicose” ou “fungo negro” têm crescido na Índia. Já são aproximadamente 9 mil pacientes acometidos pela doença, cuja taxa de letalidade é superior a 50%. E muitos dos sobreviventes acabam mutilados por cirurgias para retirada de partes do corpo afetadas pelo micro-organismo.
Embora os relatos vindos do país sejam preocupantes, especialistas entrevistados pela rede britânica BBC avaliam que ainda não há motivo para um alarme em nível internacional. Também consideram improvável que um cenário parecido se repita no Brasil.
Segundo eles, esse baixo potencial de perigo pode ser explicado por dois motivos: esses fungos já são estudados desde o final do século 19 e circulam livremente por boa parte do mundo, inclusive em cidades brasileiras.
Ao lado dos animais, dos vegetais, dos protistas e das bactérias, os fungos constituem um dos reinos da natureza, como costumamos aprender na escola. As espécies que fazem parte dessa turma são muito diversas e podem ser encontradas nos mais diferentes formatos e tamanhos.
Os cogumelos são um tipo de fungo, bem como aquele bolor cinza ou verde que se forma na superfície de frutas, verduras e pães em estado de decomposição. Os fungos também foram grandes parceiros da humanidade na história: a espécie “Saccharomyces cerevisiae”, por exemplo, é a levedura que faz o pão crescer e a cerveja fermentar.
Já o primeiro antibiótico, a penicilina, foi obtido em 1928 a partir de uma substância secretada pelo fungo Penicillium. Estima-se que o reino dos fungos, do qual os cogumelos fazem parte, possui mais de 1,5 milhão de espécies. Muitas delas ainda não foram catalogadas pela ciência.
Muitos desses micro-organismos vivem dentro de nosso próprio corpo, em uma relação amistosa e sem causar problema algum. Partes do nosso sistema respiratório e digestivo, inclusive, são colonizadas por diversas espécies de fungos.
A questão é quando acontece algum desequilíbrio no nosso organismo ou no ambiente ao redor: disfunções no sistema imune, tratamentos medicamentosos e até uma condição sanitária ruim podem servir de pretexto para esses seres microscópicos saírem do controle.
E isso pode levar às chamadas infecções oportunistas. Elas podem ser menos sérias, como uma micose na unha ou na pele, ou evoluírem para quadros graves e potencialmente mortais, como uma infecção sanguínea ou pulmonar.
No caso específico da Índia, o problema é que é a combinação de uma série de condições que ajudam a explicar o aumento dos casos de mucormicose. Os agentes causadores da doença estão no ar e tiram vantagem da umidade alta e da temperatura quente no país.
Vale reforçar que os fungos que provocam essa condição, conhecidos como Rhizopus, Rhizomucor e Mucor, estão presentes em muitos países (incluindo o Brasil) e podem ser observados no bolor do pão e das frutas, por exemplo.
Combinação de fatores
Mas se eles são tão comuns assim, por que só causam estragos em algumas poucas pessoas, enquanto outras sequer são afetadas? A explicação está na condição de saúde de cada um.
Existem três situações que facilitam o desenvolvimento da mucormicose: ter diabetes descontrolado, ser portador de doenças oncohematológicas (como a leucemia), que requerem transplante de medula óssea, ou fazer uso de altas doses de remédios da classe dos corticóides, que possuem ação anti-inflamatória.
A Índia é um dos países com maior quantidade de diabéticos do mundo e vive atualmente um descontrole da pandemia de covid-19, com um alto número de pacientes internados que necessitam tomar corticoides.
Para completar, em muitos locais mais afastados desse país, as condições sanitárias dos hospitais e das enfermarias não são as ideais, o que facilita o risco de contaminação por fungos.
Esse é o cenário perfeito para que fungos como Rhizopus, Rhizomucor e Mucor tomem conta. Na quinta-feira (27/05), o Uruguai confirmou oficialmente o primeiro caso de mucormicose em seu território. Isso alarmou brasileiros, temor compreensível quando pensamos em novos vírus e suas variantes.
Mas que não faz sentido no caso dessas infecções fúngicas. São micro-organismos que já estão aqui e até podem causar problemas se alguns cuidados básicos não forem tomados. Quando a covid chegou, especialistas já projetavam que doenças sérias provocadas por fungos poderiam aumentar.
Até o momento, o Brasil não possui registros de pacientes com mucormicose durante ou após uma infecção pelo coronavírus. Mas há relatos publicados de brasileiros que foram acometidos por outras espécies de fungos durante o período que ficaram internados por causa do coronavírus.
