A crise do banco digital Ueno e a pressão por seu suposto envolvimento no caso levaram o presidente do Paraguai, Santiago Peña, a renunciar ao cargo na quinta-feira (5). Já nessa sexta-feira (6), Peña foi preso, logo após a conclusão da votação da perda de seu mandato pelo Senado do país. Ele ficará em prisão domiciliar. A detenção acontece no contexto das investigações de suspeitas de gestão fraudulenta e outros crimes relacionados ao escândalo financeiro do banco Ueno.
A crise começou na terça-feira (3), quando o Banco Central paraguaio decidiu liquidar o banco digital após identificar operações que comprometeram a saúde financeira da instituição.
O rombo tinha origem em empréstimos concedidos pelo Ueno a empresas ligadas ao próprio banco, que comprometeram seus recursos e deixaram milhares de clientes sem acesso ao dinheiro.
Diante da situação, clientes foram às ruas para cobrar a liberação do dinheiro depositado no banco. Houve confrontos entre manifestantes e policiais em Assunção.
O escândalo também levou à renúncia de Carlos Carvallo, presidente do Banco Central do Paraguai. Carvallo havia comandado o Ueno até agosto de 2023. Tanto ele quanto o Banco Central vinham sendo criticados por parlamentares por sua atuação na supervisão da instituição.
Peña também passou a ser pressionado por ter sido acionista do Grupo Vázquez, controlador do Ueno, até março de 2025. Ele já era sócio do grupo antes de assumir a Presidência, em 2023. A oposição ainda acusa Peña de manipular regras e desviar dinheiro destinado ao pagamento de aposentadorias e outros benefícios.
O Ueno, que tinha cerca de 3 milhões de clientes e era o maior emissor de cartões de crédito do Paraguai, enfrentava problemas financeiros e era alvo de investigações.
Após uma revisão dos registros financeiros do banco, o índice de solvência — que mede a capacidade de uma instituição de cumprir suas obrigações — caiu para menos da metade do mínimo exigido pelas autoridades.
O problema estava relacionado a empréstimos concedidos a empresas ligadas à própria instituição.
Os reguladores também investigavam se o banco havia financiado indiretamente a venda de uma carteira de ativos de uma empresa ligada ao Grupo Vázquez. O Ueno negava participação nessa operação.
Diante da situação, o BC paraguaio iniciou o processo de liquidação do Ueno para proteger os depositantes e limitar possíveis impactos sobre outros bancos e instituições financeiras.
O Ministério Público também abriu uma investigação criminal sobre o caso:
– Oito pessoas ligadas ao banco se entregaram às autoridades após a emissão de mandados de prisão.
– A Procuradoria apresentou acusações formais contra 27 pessoas, e a Justiça determinou o bloqueio dos bens dos investigados.
O banco administrava aproximadamente US$ 850 milhões (R$ 4,63 bilhões) em recursos públicos no Paraguai, incluindo valores do Instituto de Previdência Social (IPS) e de outros fundos destinados ao pagamento de aposentadorias e benefícios.
Na terça-feira, clientes foram às agências do banco, mas encontraram as portas fechadas. Entre eles estavam aposentados que recebem benefícios do governo por meio do Ueno.
“Estamos exigindo acesso ao dinheiro que temos aqui no banco Ueno”, disse à agência Reuters Manuel Cáceres, morador de Ñemby, nos arredores de Assunção. “Infelizmente, muita gente, inclusive eu, está passando a manhã assim.”
A crise também preocupou clientes de outras instituições financeiras. Nesta quarta-feira (4), circularam relatos de falhas nos aplicativos de outros bancos, em meio ao aumento das transferências de recursos do Ueno para outras instituições.
A Associação de Bancos do Paraguai (Asoban) informou que os bancos trabalhavam para atender ao aumento da demanda por transferências de dinheiro. A entidade ressaltou que o sistema bancário continuava “operando normalmente”.
O Banco Central também afirmou que o caso do Ueno é isolado e não representa problemas mais amplos no sistema financeiro do país.
Peña procurou afastar o temor de que a crise atingisse outros bancos e disse que “este é um caso específico de uma entidade, não do sistema financeiro nacional”.
Segundo o Banco Central, a Superintendência de Bancos vai nomear auditores para avaliar os ativos do Ueno, como os bens e os valores de empréstimos que a instituição tem a receber. As informações são do portal de notícias G1.
