A operação anunciada no dia 30 de abril pelo líder opositor venezuelano Juan Guaidó, presidente da Assembleia Nacional, para tirar Nicolás Maduro do poder, supostamente com o apoio de militares, permanece cercada de nebulosidade. Saiba o que é conhecido e o que diferentes fontes reportaram, até sexta-feira (3), sobre os bastidores do episódio. As informações são do jornal O Globo.
Anúncio em La Carlota
Guaidó anunciou a chamada Operação Liberdade às 5h47min da manhã de terça-feira, 30 de abril, do lado de fora da base militar de La Carlota, em Altamira, bairro de classe alta de Caracas. Ele estava acompanhado de Leopoldo López, fundador do seu partido, o Vontade Popular, que até então se encontrava em prisão domiciliar, e de um grupo de militares. De acordo com Rocío San Miguel, diretora da associação Controle Cidadão, havia com Guaidó cerca de 40 militares, dos quais o mais conhecido era o tenente-coronel Illich Sánchez Farías, encarregado do destacamento que protege a sede da Assembleia Nacional.
“Golpe insignificante”
Pouco mais de três horas depois do anúncio de Guaidó, o ministro da Defesa, Vladimir Padrino, fez um pronunciamento pela TV para anunciar que havia ocorrido uma “tentativa de golpe insignificante”, e que 80% dos efetivos rebelados já haviam retornado a suas unidades. Ele atribuiu o movimento a um “reduzido grupo de traidores”.
Demissão na Sebin
Na noite de terça-feira, Maduro foi à TV para anunciar que tinha o controle da situação e que havia demitido Manuel Ricardo Cristopher Figuera da direção do Serviço Bolivariano de Inteligência (Sebin). Figuera teria sido responsável pela libertação de López e havia divulgado uma carta aberta com críticas ao governo.
Conspiração na cúpula
Fontes da oposição venezuelana e do governo dos EUA afirmam que havia negociações entre a cúpula do regime de Maduro e a liderança opositora. As altas autoridades incluiriam o próprio ministro da Defesa, Vladimir Padrino; Maikel Moreno, o presidente da Suprema Corte; e Rafael Hernández Dala, comandante da Guarda Presidencial de Maduro. O plano seria deslanchado a partir de 1º de maio, embora diferentes fontes falem em até 6 de maio.
Segundo Elliot Abrams, enviado de Donald Trump para a Venezuela, um documento de 15 pontos previa que Guaidó assumiria como presidente interino e convocaria eleições em um ano. De acordo com o site Efecto Cucuyo, no entanto, os militares negociavam a substituição de Maduro por uma junta cívico-militar, que ficaria encarregada da transição. Desse modo, o comando das Forças Armadas esperava receber não apenas a anistia prometida pela oposição, mas ter um papel relevante na transição e manter seu prestígio no governo seguinte.
Operação antecipada
De acordo com analistas e fontes da oposição, o acordo que estava sendo negociado foi por água abaixo quando Guaidó decidiu antecipar o plano para o dia 30, depois que chegou uma ordem de Manuel Figuera, do Sebin, para a libertação de Leopoldo López da prisão domiciliar. A mulher de Figuera havia embarcado em 29 de abril para os EUA, segundo a agência Bloomberg, e o próprio Figuera deixou o país. De acordo com o venezuelano Javier Mayorca, consultor em temas de defesa e militares, a antecipação irritou os militares, que sentiram que o plano estava mal organizado e desistiram de participar. Segundo a Bloomberg, o fato de Guaidó ter cedido o protagonismo a López também desagradou os militares, que consideram o fundador do Vontade Popular pouco confiável.
Jogo duplo
Outros analistas especulam que Padrino, o ministro da Defesa, estava fazendo um jogo duplo e informou Maduro e seus aliados cubanos e russos dos planos opositores.
