“Willer é meu amigo, não meu sócio.”
Foi assim que Flávio Bolsonaro (PL-RJ) respondeu a Luiz Inácio Lula da Silva (PT) durante o debate presidencial da TV Globo, na sexta-feira (23), quando foi questionado sobre sua relação com o advogado Willer Tomaz. Após a derrota nas urnas, no domingo (25), a declaração ganhou novos contornos diante das investigações envolvendo os dois.
Na segunda (26), o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou que o senador entregasse seus passaportes e proibiu sua saída do Brasil. A decisão também vetou qualquer contato com Willer Tomaz, direta ou indiretamente, inclusive por intermédio de terceiros.
Flávio não cumpriu a determinação no prazo estabelecido, encerrado às 11h dessa terça (27). Diante do descumprimento, a PF cancelou os passaportes brasileiros do parlamentar e informou que comunicaria o caso a Moraes. A medida ocorreu no âmbito de uma investigação que apura suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo o senador, o advogado, empresas ligadas a Tomaz e casas de apostas on-line.
Nessa terça, aliados e fontes ligadas ao governo americano confirmaram que Flávio chegou aos Estados Unidos acompanhado da esposa e das duas filhas. O Departamento de Estado informou que concederá vistos aos familiares e permitirá sua entrada no país. Apesar das informações sobre a chegada, o percurso utilizado pelo senador para deixar o Brasil não foi esclarecido oficialmente.
Inicialmente, o site argentino Infobae noticiou que Flávio teria cruzado a fronteira por Puerto Iguazú, na Argentina, e embarcado em um jato particular com destino aos Estados Unidos. Entretanto, não havia confirmação oficial de sua passagem pela Argentina, e o governo argentino informou que não encontrou registro de entrada do senador.
A relação entre Flávio e Willer é antiga. Os dois já viajaram juntos para um safári na África do Sul, e o advogado teria pago para retirar da internet reportagens que associavam seus nomes. Segundo informações atribuídas à Polícia Federal, Flávio também manteve acesso de “usuário master” a uma conta da Alcazar, holding vinculada a Willer na Ilha da Madeira, em Portugal, até maio de 2025. Esse tipo de acesso é apontado pelos investigadores como um elemento relevante para esclarecer a natureza da relação entre ambos.
O advogado também aparece em uma disputa judicial envolvendo o jogador Richarlison. O atleta pagou por uma mansão em Angra dos Reis, avaliada em R$ 10 milhões, mas perdeu o imóvel em uma disputa com uma empresa ligada a Willer. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiu em favor da empresa. Durante o debate, Flávio comentou o caso e provocou o jogador: “Você está tomando volta do seu empresário”.
Na semana anterior, Moraes havia determinado o bloqueio de até R$ 6 bilhões em bens e valores vinculados a Willer, além da quebra de sigilos e da suspensão das atividades de empresas relacionadas ao advogado. As medidas fazem parte da apuração de possíveis operações de lavagem de dinheiro envolvendo apostas esportivas.
Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz negam irregularidades. O senador afirma ser alvo de perseguição política, enquanto as investigações buscam esclarecer a relação financeira entre os envolvidos e a eventual participação deles nos fatos apurados.
Lula
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou a fuga do senador. Para Lula, o adversário deveria ter permanecido no País para demonstrar que não tem motivos para temer as consequências do resultado eleitoral. Flávio chegou aos EUA acompanhado da esposa e das filhas, conforme informações divulgadas pela imprensa e por fontes ligadas ao governo americano.
As declarações foram feitas durante uma cerimônia no Palácio da Alvorada, residência oficial da Presidência da República, em comemoração aos 81 anos do presidente. Na ocasião, Lula relembrou episódios de sua trajetória política e destacou que permaneceu no Brasil mesmo após sofrer derrotas eleitorais e enfrentar acusações judiciais.
“Eu estou sabendo agora que o meu adversário foi embora, não sei. Não tenho informações precisas”, afirmou o presidente. Em seguida, citou as disputas em que foi derrotado por Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso, ressaltando que continuou no país após os resultados. Lula também mencionou Geraldo Alckmin e José Serra, que permaneceram no Brasil depois de perderem eleições presidenciais para ele.
Ao comentar a saída do senador, o petista questionou os motivos que teriam levado o adversário a deixar o território brasileiro. “Fico imaginando que culpa tem na consciência um cidadão que acaba de perder as eleições e foge do seu país”, declarou. Lula acrescentou que, quando enfrentou acusações, recebeu convites para deixar o Brasil, mas optou por permanecer e se apresentar à PF.
“Quando pediram para eu entregar meu passaporte, eu entreguei. Ele deveria ter entregado. Mas, lamentavelmente, a família Bolsonaro é isso. O Brasil é a segunda pátria dele. A primeira é lamber-botas dos EUA”, declarou. (Com informações do colunista Matheus Leitão, do portal Metrópoles e do portal g1)
