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Esparrelas publicitárias nada edificantes

É curioso ver que na arena do poder — e fora dela também — muitíssimas pessoas se esforçam para mostrar para todo mundo, menos para Deus, que são pessoas de valor e não sujeitinhos cuja dignidade tem um preço, sempre devidamente atualizado e corrigido pela inflação.

E o que mais chama a atenção é que, quanto mais essas figuras, figurinhas e figurões tentam provar que são criaturas de alma ilibada, mais se enrolam nos próprios pés.

Na verdade, todos nós, em algum momento de nossas vidas, acabamos por cair nesse tipo de esparrela e terminamos por pagar aquele mico existencial nada original de querer posar de detentores de uma dignidade que não nos pertence.

Bem, noves fora zero, há um momento em que todos nós podemos ver com clareza de que material é feito o nosso caráter e qual é a têmpera de nossa alma: é quando estamos diante da morte; da nossa morte.

É quando estamos frente à possibilidade de ficarmos cara a cara com ela que realmente iremos descobrir qual é a envergadura do nosso caráter e a solidez da nossa personalidade.

A título de exemplo, há no prefácio do livro “A sabedoria das leis eternas”, do filósofo Mário Ferreira dos Santos, uma descrição sobre os últimos momentos da sua vida que foi narrada por uma de suas filhas.

Contava ela que, quando seu pai estava para partir, pediu aos seus genros que o levantassem do leito porque, segundo ele, um homem deve morrer em pé. Os genros atenderam ao seu pedido e ele, ereto, recitou um Pai-Nosso e morreu.

Morreu da mesma forma que sempre viveu: sendo um filósofo e, como tal, ensinando com destemor a filosofar com suas palavras e, principalmente, com o seu modo de ser.

Sócrates, nos diálogos platônicos, ensinava — com a clareza de uma noite de lua cheia — que filosofar é aprender a morrer, e que aprender a morrer nada mais seria do que aprender a viver verdadeiramente, esforçando-se para realizar plenamente as suas potencialidades e, desta forma, ir lapidando a sua humanidade.

E imagino eu que, por essa razão, ele dizia que uma vida irrefletida seria indigna de ser vivida, do mesmo modo que palavras ditas de forma impensada não mereceriam ser ouvidas.

Dito de outra forma, podemos afirmar que cada um de nós, quando vem a esse mundo, traz um ser em forma bruta que necessita ser cinzelado para tomar a forma potencial que se encontra latente em nossa crueza demasiadamente humana.

Porém, diferentemente de uma estátua de Michelangelo, muitas são as mãos que deixam suas cinzeladas na matéria bruta do nosso ser: nossa família, nossos colegas e amigos, a comunidade, a sociedade, as religiões, as ideologias, a mídia e tutti quanti.

Contudo, independentemente das marcas que foram deixadas por esses inúmeros artífices, há um momento em que somos nós que devemos assumir a obra, para nos tornarmos indivíduos autônomos, capazes de lutar com unhas e dentes para não sermos reduzidos a uma reles figura autômata, que tem seu passo marcado pelo ritmo oco e estridente das forças que nos circundam.

E esse momento decisivo é quando compreendemos que devemos meditar frequentemente a respeito da nossa morte para, no final, entendermos que não se deve temer o nosso destino derradeiro neste vale de lágrimas, mas sim tremer diante da possibilidade de morrermos fazendo o que é errado perante as leis eternas.

É diante desse questionamento que se revelam os homens de valor e o valor de cada homem. O resto, meu amigo, é apenas conversa publicitária.

(Dartagnan da Silva Zanela – professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de “UM GRANDE MONTE DE PÓ E SOMBRAS”, entre outros livros)

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