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Especialista alerta: sociedade da exaustão está adoecendo as pessoas e aponta caminho para mudar

Na segunda palestra da SIPAT da Rede Pampa, a especialista em neurociência comportamental Carla Lubisco defendeu que saúde física, mental e emocional se tornaram ativos estratégicos para a vida pessoal e profissional

Em um mundo conectado vinte e quatro horas por dia, no qual produtividade, velocidade e desempenho se transformaram em métricas permanentes de valor, cresce silenciosamente um fenômeno que preocupa empresas, especialistas e profissionais da saúde: o esgotamento humano.

Ansiedade, insônia, fadiga crônica, dificuldade de concentração e sensação permanente de insuficiência passaram a integrar a rotina de milhões de pessoas. Se, por um lado, a tecnologia ampliou o acesso à informação e multiplicou oportunidades, por outro, também intensificou a pressão por resultados, reduziu o tempo de recuperação mental e contribuiu para uma cultura marcada pela aceleração constante.

Foi sobre esse cenário que a especialista em neurociência comportamental, qualidade de vida e desenvolvimento humano Carla Lubisco falou durante a segunda palestra da Semana Interna de Prevenção de Acidentes do Trabalho (SIPAT) da Rede Pampa.

Reconhecida como uma das pioneiras da promoção da qualidade de vida no Brasil, Carla acumula mais de quatro décadas de atuação profissional. Sua trajetória começou na educação física, área na qual participou da consolidação do conceito de personal trainer no país, e evoluiu para uma atuação voltada ao estudo da mudança de hábitos, do comportamento humano e da neurociência aplicada à vida cotidiana.

Ao longo dessa jornada, desenvolveu programas de qualidade de vida para empresários, executivos e personalidades, entre eles o industrial Jorge Gerdau Johannpeter, uma das maiores referências da indústria brasileira. Também atuou em projetos ligados à supermodelo Gisele Bündchen e acompanhou nomes conhecidos da sociedade brasileira, como Narcisa Tamborindeguy, consolidando uma carreira construída na intersecção entre saúde, comportamento e desempenho humano.

Autora do livro Vida Simples, Saudável e Feliz, publicado após anos de pesquisa e experiência prática, Carla defende uma tese que vai na contramão da lógica predominante do mercado contemporâneo: antes de buscar alta performance, é preciso construir saúde.

“Sem saúde, tudo é nada”, afirmou.

A frase resume a essência de seu trabalho. Segundo a especialista, a maior parte das pessoas compreende a importância da alimentação adequada, da prática regular de exercícios físicos, do sono de qualidade e da gestão emocional. O problema não está na falta de informação, mas na dificuldade de transformar conhecimento em comportamento.

É nesse ponto que a neurociência comportamental ajuda a compreender o desafio.

Durante a palestra, Carla explicou que o cérebro humano foi desenvolvido para economizar energia e garantir sobrevivência. Por essa razão, tende a repetir padrões conhecidos e transformar comportamentos frequentes em hábitos automáticos. Embora esse mecanismo seja essencial para o funcionamento cotidiano, ele também explica por que mudar rotinas pode ser tão difícil.

Quanto mais um comportamento é repetido, mais consolidada se torna a rede neural associada àquela ação. Por isso, abandonar hábitos prejudiciais e construir novos padrões exige disciplina, repetição, persistência e propósito.

A especialista também chamou atenção para os efeitos da hiperconectividade sobre a saúde mental. Segundo ela, a disputa permanente pela atenção, impulsionada pelas plataformas digitais, vem reduzindo a capacidade de concentração e aumentando os níveis de ansiedade.

“Nossa atenção está fragmentada. Estamos sempre olhando para o próximo compromisso, para a próxima mensagem ou para a próxima cobrança”, observou.

Para Carla, um dos maiores desafios contemporâneos é recuperar a capacidade de estar presente. A felicidade, explicou, não está necessariamente associada a grandes conquistas ou eventos extraordinários, mas à habilidade de viver conscientemente o momento atual.

Outro aspecto abordado foi a consciência sobre a finitude da vida. Longe de representar uma visão pessimista, a reflexão surge como instrumento de reorganização de prioridades.

Segundo ela, quando as pessoas compreendem que o tempo é limitado, passam a valorizar mais a saúde, os relacionamentos, a família, os momentos de pausa e os projetos que possuem significado genuíno.

A mensagem encontra eco em tendências observadas no mundo corporativo. Cada vez mais organizações percebem que produtividade sustentável não depende apenas de metas, processos ou tecnologia. Depende, sobretudo, da capacidade de preservar o bem-estar físico e emocional de suas equipes.

Nesse contexto, Carla defende que ambientes de trabalho mais humanos, baseados em acolhimento, escuta, empatia e relações saudáveis, não representam apenas uma demanda social. São também uma necessidade estratégica.

Ao encerrar sua participação na SIPAT da Rede Pampa, a especialista deixou uma reflexão que sintetiza sua trajetória profissional e a proposta apresentada em seu livro. Em uma sociedade movida pela pressa, pelo excesso de estímulos e pela busca incessante por resultados, talvez a verdadeira inovação esteja na redescoberta do essencial.

Alimentar-se melhor. Dormir melhor. Cultivar relações verdadeiras. Administrar o estresse. Estar presente.

Pode parecer simples. E, segundo Carla Lubisco, é justamente essa simplicidade que muitos perderam pelo caminho.

Porque, no fim das contas, o maior patrimônio de qualquer pessoa ou organização continua sendo o mesmo: a capacidade de viver, trabalhar e prosperar sem abrir mão da própria saúde. (por Gisele Flores – gisele@pampa.com.br)

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