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Especialistas recomendam cautela com dados médicos de smartwatch

Abla estima que, entre aqueles que buscam atendimento de emergência após alertas relacionados ao ritmo cardíaco, cerca de 60% a 70% apresentam alguma arritmia confirmada posteriormente. (Foto: Reprodução)

Os wearables, como são chamadas as tecnologias vestíveis, têm se tornado cada vez mais populares, com destaque para os relógios inteligentes. Eles prometem, por meio de sensores, acompanhar diferentes parâmetros do organismo, como batimentos cardíacos, qualidade do sono e número de passos ao longo do dia. Quando o aparelho entende que determinados dados de saúde do usuário indicam alguma inconformidade, como batimentos acelerados, pode até emitir um sinal de alerta.

Segundo Alexandre Abla, cardiologista do Hcor, cada vez mais pacientes chegam aos atendimentos de emergência justamente por causa desse tipo de notificação. Segundo ele, o comportamento é mais comum entre homens de 30 a 50 anos. Mas esses alertas de palpitação são, de fato, motivo para ir ao pronto-socorro?

Depende. A decisão de ir ao PS após um alerta deve variar conforme o contexto de cada paciente. De acordo com Abla, indivíduos com histórico clínico ou familiar relevante de enfarte e arritmias devem procurar o hospital o mais rápido possível. “Mas, se não houver histórico tão importante, o alerta isolado não representa a necessidade de buscar a emergência de imediato”, detalha.

Nessas situações, Abla indica opções como uma avaliação por teleconsulta, caso o paciente tenha acesso a esse tipo de serviço, ou o agendamento de uma consulta presencial.

Abla estima que, entre aqueles que buscam atendimento de emergência após alertas relacionados ao ritmo cardíaco, cerca de 60% a 70% apresentam alguma arritmia confirmada posteriormente.

Isso, no entanto, não significa que os aparelhos devem ser usados como única fonte de evidência. Segundo Diandro Mota, cardiologista e assessor de comunicação científica da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp), eles chamam a atenção para um sinal que pode exigir investigação, mas não confirmam doenças. Café em excesso, estresse, privação de sono, ansiedade e desidratação, por exemplo, também podem provocar taquicardia, uma aceleração do ritmo normal do coração. Além disso, os dispositivos podem gerar registros inadequados se estiverem frouxos ou mal adaptados.

Em agosto, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu alerta sobre esse tipo de aparelho, destacando que ele pode ajudar no acompanhamento de indicadores de saúde, mas que os resultados exibidos não substituem exames nem avaliações médicas.

Da mesma forma, um resultado considerado normal pelo dispositivo não é suficiente para descartar um problema de saúde.

Os wearables, porém, podem ajudar na prática clínica. Mota cita que os aparelhos permitem um acompanhamento de longo prazo, uma vez que o paciente tende a vestir os dispositivos no dia a dia. O eletrocardiograma tradicional de consultório, diz ele, capta uma amostragem muito pequena da rotina do paciente.

A Associação Americana de Cardiologia (AHA) orienta que pacientes compartilhem seus dados de wearables com os médicos para que contribuam para a investigação de fibrilação atrial, tipo mais comum de arritmia cardíaca. “O que precisamos é de uma educação por parte dos profissionais da saúde para que eles aprendam a interpretar e orientar esses dados, assim como o paciente deve ser orientado quanto às limitações desses dispositivos”, pontua Mota.

Embora os wearables possam ajudar a ampliar a consciência sobre estilo de vida, favorecer mudanças de comportamento e apoiar profissionais de saúde na condução de certos quadros, especialistas pedem cautela no uso das métricas. “A quantificação da saúde traz uma sensação de objetividade, mas pode induzir a uma ilusão de controle”, disse Luiz Zoldan, gerente médico do Espaço Einstein de Saúde Mental e Bem-Estar.

“A tecnologia pode ser uma ferramenta de autoconhecimento, desde que não se torne fonte de ansiedade. Se gerar culpa, comparação ou perfeccionismo, vale se perguntar: isso está ampliando minha consciência ou estreitando minha liberdade? Nenhum relógio substitui a capacidade de sentir o próprio corpo”, enfatizou a endocrinologista Alessandra Rascovski. (Com informações do portal Estadão)

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