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Esquerda e direita: pesquisa da Folha

Desde 2022 a Folha de São Paulo promove uma pesquisa que se propõe a identificar o tamanho da esquerda, da direita e do centro político no Brasil.

Talvez tenha faltado, no questionário, uma ou outra questão para definir quem é quem em cada uma das vertentes. Dois exemplos: uma pergunta sobre cotas raciais, outra sobre o equilíbrio nas contas públicas fiscal seriam bem pertinentes. Mas é um bom ponto de partida para se falar com maior propriedade e exatidão dos conceitos preferenciais que caracterizam os campos políticos.

Para ser bem resumido, pode-se dizer que, no parâmetro proposto, em torno de 12 por cento da população é integralmente de esquerda e 12 por cento integralmente de direita (em números redondos), permanecendo os restantes num grande arco do centro.

A projeção da Folha vale-se de um índice bem razoável, o centro expandido, agregando os esquerdistas e direitistas menos “puros” ao centro – formando a centro-esquerda e a centro-direita. Nessa condição, cerca de 70% dos pesquisados podem ser classificados como de centro.

Os quesitos se dividem em comportamento e economia. Se o indivíduo é a favor da pena de morte, é de direita. Se é contra, é de esquerda. Se é a favor da redução da maioridade penal é de direita. Se é contra, de esquerda. Se acha que é melhor ser o menos possível dependente do Estado, é de direita, se acha que é obrigação do Estado prover as necessidades básicas da população, é de esquerda. E assim por diante.

A parcela mais numerosa dos entrevistados, em certo quesito escolheu a opção de esquerda, em outro de direita. A própria Folha, para melhor efeito didático, criou o conceito de centro expandido. É o caso de alguém que defende a posse de armas pelo cidadão (direita) mas acha que a pobreza tem como causa a falta de oportunidades(esquerda).

Alguém pode ser como um amigo meu, que abomina as armas, mas acha errado proibi-las. O mesmo cidadão é a favor da redução da maioridade penal. Se o maior de 16 anos tem capacidade para escolher o presidente, deve ser também capaz de discernir sobre o bem e o mal, quando se dispõe a cometer um crime grave, como o estupro, o tráfico de drogas.

Há respostas surpreendentes. Nada menos do que 40% dos brasileiros acreditam que, entre os demais cidadãos, uma boa parte não trabalha por preguiça. Sim, é um conceito clássico da direita, dos mais regressivos e preconceituosos, e do qual não há nenhuma evidência – torna desprezíveis uma boa parte dos nossos compatriotas.

De todo o modo, no Brasil polarizado de hoje, o que predomina em ambos os lados do embate político, não é uma adesão fechada com a divisão clássica de esquerda e direita. As pessoas não estão mais dando importância e valor para a antiga divisão, que têm origem no século XVIII, na Revolução Francesa, e assumem atitudes e posições por elas mesmas, não porque sejam de direita e esquerda. Em meio à polarização, se misturam respostas contraditórias.

Talvez esteja com a validade vencida utilizar as categorizações tradicionais do campo político: na velha síntese já não cabem todas as escolhas, todos os pontos de vista.

(titoguarniere@terra.com.br)

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