Epidemiologista e ex-reitor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Pedro Hallal afirmou que o Brasil está mais próximo de uma terceira onda da covid-19. Estava prevista para acontecer apenas no final de junho ou início de julho.
“Essa 3ª onda está vindo antes do esperado, pelo menos na minha percepção. Eu achei que ela começaria com um pouco mais de força no final de junho, começo de julho, ela está vindo com um mês de antecedência”, disse Hallal em entrevista à GloboNews.
“A 3ª onda tem potencial de ser devastadora se o Brasil não levá-la a sério, como aliás não levou a sério nem a primeira, nem a segunda onda. No caso do Brasil, a 3ª onda é extremamente preocupante porque a gente já parte de um patamar muito alto. O momento que está começando nós já estamos com 2 mil mortes de média móvel diária, então assim, não tem como fazer uma previsão otimista.”
Mutações internas
O epidemiologista Wanderson Oliveira diz que a variante indiana, que provavelmente está ligada ao crescente número de mortos no país asiático, já circula no Brasil, mas avalia que mutações do vírus originadas na América do Sul representam um risco maior à população.
“Não se trata apenas de aspectos regionais. Mas também de uma disputa entre os vírus. Não temos certeza se nesse caso haverá essa disputa, mas temos observado, por exemplo, que a P1, que agravou a situação no Brasil, não teve o mesmo padrão de comportamento em outros países onde já foi detectada. As variantes sul-africana e a do Reino Unido não prosperaram por aqui. Parece que onde há uma mutação dominante, a outra não avança.”
Ele diz que a P4, identificada no interior de São Paulo, tem semelhanças com a P1 de Manaus, que já se espalhou, e pode ser um fator de agravamento: “Posso queimar a língua e a variante indiana dominar, mas acho que mutações como a P4, que surgiram aqui, têm um potencial maior”.
O ex-sectário de vigilância em saúde do governo federal diz que, embora o país não tenha hoje mortes diárias na casa dos quatro mil óbitos, os números continuam altos e é difícil saber se estamos entrando numa nova onda ou se é uma oscilação dos quadros anteriores, que, segundo ele, nunca arrefeceram no país de forma mais firme.
O clima no Brasil deve contribuir, diz o especialista, para o prognóstico mais grave. “Estamos entrando no inverno, quando os vírus respiratórios circulam mais e as pessoas ficam em locais mais fechados. Se no verão tivemos alta, é de se esperar nova piora agora.”
Ele diz que é possível tomar medidas sanitárias para minimizar esse cenário.
“Isolar quem tiver sintomas de gripe. Acelerar a produção de vacinas, pois precisamos de dois milhões de doses por dia. Também precisamos melhorar a qualidade das máscaras. Usar uma cirúrgica junto com uma de pano. E, se der, a N-95, ou como é conhecida aqui, a PFF2, que protege mais. Empresários conseguem comprar mais barato e poderiam doar cinco máscaras dessas a cada funcionário. Ele usaria uma por dia e repetiria o uso delas, num rodízio por dois meses. Empresários também poderiam trazer para cá testes de farmácia para a covid, como os de gravidez.”
