Luciana Borio, médica infectologista brasileira com ampla colaboração no sistema de saúde dos Estados Unidos, diz que muitos foram os aprendizados na pandemia da covid-19. Há os pontos positivos, como o desenvolvimento e aceitação de testes caseiros para detectar a doença, mas também experiências negativas, entre elas o medo em comunicar informações complexas de saúde à população, sob a justificativa de que se daria munição aos grupos antivacina – cuja instalação no Brasil, segundo ela, causa muita preocupação.
A médica especialista em biossegurança trabalhou por quase dez anos na Food and Drug Administration (FDA) – reguladora de medicamentos nos EUA, semelhante à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) – e fez parte do comitê consultivo para covid-19 montado pelo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, em seu período de transição à Presidência, em 2020. Neste momento, faz parte de uma gestora de investimento privado em novas empresas de tecnologia e saúde que podem lançar novas vacinas e curas. Na semana passada, Luciana esteve no Brasil para uma palestra na gestora de investimentos GeoCapital e concedeu entrevista ao jornal O Globo. Confira abaixo trechos da entrevista.
– Quais são os gargalos para controlar de vez a covid-19? “O movimento anticiência causou muitos danos na resposta pública à doença. Acredito que o setor médico tem alguma responsabilidade. Nos Estados Unidos, por exemplo, houve uma propaganda muito grande para fazer doses de reforço (da terceira dose em diante) em todo mundo, mas sem dizer especificamente que os que mais se beneficiam com essas doses extras eram os idosos. Essa informação generalizada causou alguma resistência em algumas pessoas mais jovens, que acabaram influenciando as pessoas mais velhas – novamente, as mais beneficiadas com essa aplicação. O governo, em algumas ocasiões, não comunicou claramente a ciência. Acho que houve uma demora muito grande em reconhecer que a infecção natural também protege contra a doença. Claro, isso só faz sentido com comunidades inteiras vacinadas, quando chegamos à chamada proteção híbrida.”
– Neste momento, os especialistas dizem que a vacinação básica é de três doses. Concorda? “Sim, podemos dizer isso. Mas depende da pessoa. Se for uma criança com saúde que tomou duas doses e teve duas infecções, não sei se é tão necessário assim, pois estamos na pandemia e sempre nos expondo ao vírus. Mas dizer que a base são três doses está certo.”
– Qual sua opinião sobre doses de reforço anuais? De quanto em quanto tempo serão necessárias? “Ainda não temos uma resposta clara. Sabemos que o vírus vai continuar mudando, evoluindo e causando uma doença semelhante ao resfriado (em um primeiro momento). É importante entendermos qual a frequência necessária de doses para que uma pessoa não fique excessivamente doente, não precise ir ao hospital. Isso é o que interessa.”
– O que precisamos levar de lição de casa dessa pandemia para as próximas epidemias com potencial de alto impacto? “Há muitos pontos positivos. Os testes diagnósticos para fazer em casa são um deles. Antigamente, existia uma dúvida enorme se as pessoas conseguiriam fazer o passo a passo em casa, se fariam corretamente. E estão realmente fazendo tudo direitinho, como se fosse ao lado de um médico. Isso abre portas para novos diagnósticos e traz uma mudança para a população, que ganha mais autonomia em relação à própria saúde. É uma tendência. As vacinas de RNA Mensageiro (como as da Pfizer e Moderna) também são revolucionárias. Estamos apenas começando a ver essa inovação.” As informações são do jornal O Globo.
