Em depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da covid-19, o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello afirmou que “não comprou nenhuma grama de cloroquina”. O militar alega que apenas distribuiu o medicamento que foi solicitado pelos estados e municípios.
Usada para tratar doenças como malária, artrite reumatoide e lúpus, a hidroxicloroquina não tem eficácia científica comprovada contra o novo coronavírus. De acordo com Pazuello, ele não seguiu orientações do presidente Jair Bolsonaro, e a opinião do chefe do Executivo não interferiu nas ações da pasta que ele comandava.
“Na minha visão, as ações dele não mudaram a minha visão. Eu não fiz e não faria e não deixei fazer. Se aconteceu em outro nível do ministério, foi sem a minha autorização. Eu não concordo com isso. Eu não comprei nenhuma grama de hidroxicloroquina, não fomentei o uso”, disse Pazuello.
O ex-ministro admitiu que a opinião do presidente e dos demais ministros tem “impacto imensurável”. No entanto, destacou que as decisões dele não sofreram intervenções.
Acusação
Na retomada do depoimento de Eduardo Pazuello na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid-19, nesta quinta-feira, o senador Renan Calheiros (MDB-AL), relator da CPI, acusou o ex-ministro da Saúde de já ter mentido em 14 oportunidades e pediu formalmente a contratação de uma agência de checagem para verificar possíveis inverdades ditas pelos depoentes. O ex-ministro, por sua vez, negou ter cometido falhas no colapso de Manaus, em janeiro, e nas negociações por vacinas, e disse ainda que o presidente Jair Bolsonaro dá declarações que “precisam ser corrigidas depois”.
Ao longo do depoimento nesta quinta, encerrado pouco depois das 17h, Pazuello alegou que decisões sobre compra de vacinas não eram “só de uma pessoa” e culpou o governo do Amazonas e a empresa fornecedora White Martins pela falta de oxigênio em Manaus no colapso hospitalar em janeiro. Pazuello alegou ainda que teria ocorrido um “roubo” que levou à divulgação indevida do aplicativo TrateCov, que receitava cloroquina até para bebês, embora a plataforma tenha sido divulgada por canais oficias do governo.
Ainda de acordo com a avaliação do ex-ministro, algumas falas do presidente precisam ser “corrigidas” depois: “Não podemos esconder o sol com a peneira. Ele fala de improviso, de pronto, como ele pensa. E algumas coisas precisam ser corrigidas depois, precisam ser reconversadas”, disse Pazuello.
Renan criticou o conteúdo das declarações de Pazuello e classificou a postura do ex-ministro como “negação do negacionismo”.
“É fundamental essa comissão contratar o serviço para fazer uma procura online da verdade, uma varredura das mentiras que estão sendo pronunciadas aqui. Tivemos uma primeira amostragem dessas contradições, inverdades e omissões. O depoente em 14 oportunidades mentiu flagrantemente e ousou negar suas declarações”, disse Renan, que ironizou: “É a negação do negacionismo. Deve ser uma nova cepa. Negar tudo o que está posto, que a sociedade conhece, acompanha e se indigna, é tripudiar da CPI, imaginar que palavras são jogadas ao vento. Precisamos que se respeite essa comissão”.
