Um ex-soldado da PM (Polícia Militar) brasileira revelou o “assédio moral” que acontece em treinamentos da corporação e como a cultura militar ” é uma espécie de religião que cria fanáticos”. Em entrevista ao jornal espanhol El País”, Darlan Menezes Abrantes revelou o medo que sentia de oficiais e o despreparo para lidar com as pessoas nas ruas que o tipo de treinamento oferecido pela PM cria.
“O soldado é treinado pra ter medo de oficial e só. O treinamento era só mexer com o emocional, era para o cara sair do quartel igual a um pitbull, doido pra morder as pessoas. Como é que eu vou servir a sociedade desse jeito? É ridículo”, falou Abrantes à publicação. “O policial tem que treinar o raciocínio rápido, a capacidade de tomar decisões. Hoje, se treina um policial como um cachorro para uma rinha de rua.”
Abrantes foi expulso da polícia do Ceará em janeiro de 2014 após publicar o livro “Militarismo: um sistema arcaico de segurança pública”. Ele passou 13 anos na corporação. “Eu fui pra algumas universidades aqui de Fortaleza distribuir o livro e fiquei do lado de fora da Academia. Fui interrogado e eu fiquei impedido de trabalhar na rua”, contou.
Questionamento.
O ex-policial passou sete meses no extinto Curso de Formação e Aperfeiçoamento de Praças da PM cearense. Ele contou que por começar a questionar ordens abusivas de superiores, ganhou o apelido de “Mazela”, termo comum no Ceará para identificar alguém preguiçoso. “Fiquei com essa fama no quartel”, contou ele. “É uma lavagem cerebral. O militarismo é uma espécie de religião que cria fanáticos. Ordem unida, leis militares, os regimentos e tal, aqueles gritos de guerra”, relatou.
Abrantes fez críticas a pequenas regras militares que, segundo ele, atrapalham a vida do policial: “Essas coisinhas bestas que os policiais vão aprendendo, como arrumar direito a farda. Você pode ser preso se não tiver com um gorro ou chapéu na cabeça. Essas coisas que só atrapalham a vida dos policiais. Às vezes eu pegava um ônibus superlotado, chegava com a farda amassada e ficava sexta-feira, sábado e domingo preso. Você imagina? Por causa de uma besteira dessas? Isso é ridículo”, declarou.
Treinamento falho
Uma pesquisa publicada em 2014 pela pelo Centro de Pesquisas Jurídicas Aplicadas da Escola de Direito da Fundação Getulio Vargas e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, revelou dados alarmantes. Segundo o levantamento, 82,7% dos policiais entrevistados afirmaram ter formação máxima de um ano antes de exercer a função, 38,8% disseram que já foram vítima de tortura física ou psicológica no treinamento ou fora dele e 64,4% afirmam ter sido humilhados ou desrespeitados por superiores hierárquicos. Apesar disso, o assunto ainda é pouco discutido. (AD)
