O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso criticou a Justiça Eleitoral que absolveu o presidente Michel Temer, voltou a defender a ideia de convocação de eleições antecipadas e disse a empresários e profissionais do setor de saúde, que ouviram sua palestra em um hotel de luxo em São Paulo, que eles devem estar preparados para enfrentar o também ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas urnas.
Questionado sobre possíveis saídas para a crise, Fernando Henrique abordou a situação jurídica do ex-presidente Lula. Para FH, pode ser possível que o enfrentamento com o petista ocorra nas urnas. “O Lula está por conta da Justiça, não sei o que a Justiça vai fazer. Mas suponhamos que a Justiça diga que o Lula não fez nada: ele é candidato, é o único candidato possível [do PT]. Só resta vencer na urna. Ou então dar golpe, mas como eu sou contra golpe, só resta é vencer na urna”, afirmou.
Indagado sobre a possibilidade de uma vitória sobre Lula nas eleições, FH se mostrou otimista nas chances de um candidato do polo oposto ao petista. “Acho difícil que o Lula consiga recuperar o que perdeu na classe média. Eu não acho que o Lula seja não-derrotável”, disse.
Depois de falar longamente sobre a crise política no mundo e direcioná-la ao Brasil, falando o quanto o presidente “deve falar ao Congresso, à nação e saber de lidar com a burocracia, a máquina do Estado e as instituições brasileiras”, FH disse que existe a possibilidade de Michel Temer não terminar o mandato e sugeriu que Temer convocasse as principais forças políticas do país e se dispor a deixar o governo antes de 2018, com a realização de eleições diretas. O tucano classificou a situação de Temer de gravíssima e inédita, devido à provável denúncia que deve ser apresentada pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot.
“Se por um lado isso é sinal de que as instituições estão independentes, por outro lado, é gravíssimo”, declarou FH, depois de criticar a decisão que inocentou a chapa Dilma-Temer no TSE. “O TSE surpreendentemente disse que não houve abuso de poder econômico depois de ter mostrado todos e usou como argumento que como um colegiado de sete pessoas vai derrubar um presidente que está lá pelo voto de milhões”, apontou.
Um dos cotados do PSDB para enfrentar Lula, o prefeito de São Paulo João Doria também não escapou da análise do ex-presidente. Para FH, um adversário para o petista precisa ser capaz de se comunicar com a população.
“É com outra linguagem e com uma coisa que eu não sou capaz de fazer. Isto aqui está no meu bolso, essa maquininha (aparelho celular), não está na minha alma. O mundo hoje tem isso aqui na alma. Por que o prefeito de São Paulo está fazendo algum sucesso? Porque ele manipula isso o dia inteiro. Ele mudou alguma coisa? Eu não vi”, disse.
Ao jornal O Estado de S.Paulo, Doria respondeu FH afirmando que respeita e admira o ex-presidente. “Mas acho que ele está precisando sair um pouco de seu apartamento e visitar São Paulo”, declarrou.
Para o ex-presidente, o Brasil está “vivendo um colapso do modelo da Constituinte de 1988”. O ex-presidente elogiou ainda o papel dos militares na crise, que respeitam as leis. O tucano elogiou o fato de as Forças Armadas estarem “fora do jogo”.
“Ainda bem que estão, porque se estivessem teria alguém com espada na mão e o povo aplaudindo”, disse.
Mobilizações
Na palestra, o ex-presidente falou ainda sobre a corrupção no Brasil, que segundo ele se organizou e passou a ser base de sustentação do poder; “o sistema está corrompido” porque não são as empresas que mantêm o partido, mas o “próprio governo”.
A classe média, segundo ele, está indignada, mas “em casa”. Segundo ele, a falta de mobilização se dá ao fato de que nenhuma sociedade moderna “se mobiliza o tempo todo”. As vezes, segundo ele, o motivo de mobilização é lateral, como o aumento do preço dos ônibus em 2013. A rua, segundo ele, não fica permanentemente fervendo o tempo todo.
“Aqui de repente pode acontecer, e o sistema está enfraquecido. Sempre tem um partido que sabe manobrar a máquina pública e que chegar ao poder nunca foi objetivo do PMDB, que ele chegou a presidência por acidente”, afirmou FHC.
Reforma política
O ex-presidente falou sobre a necessidade da reforma política, ao falar da crise do modelo elaborado na Constituição de 1988.
“Nós tivemos uma fragmentação partidária enorme, a sociedade está fragmentada também, só que não há correlação entre a fragmentação dos partidos e da sociedade. Isso coloca uma questão de governabilidade enorme. E como se compõe uma maioria? Caso a caso. Não existe mais uma coerência programática que mantenha as pessoas unidas”, declarou, falando das tradições patrimonialistas e corporativas que deixou os partidos como “sindicatos”. (AG)