Foi num domingo qualquer, desses que parecem não ter importância suficiente para virar lembrança. Apenas o silêncio doméstico de uma vida que, por algumas horas, parecia estar no lugar certo.
Contas pagas, comida na mesa, minha mãe com suas dores, cuidados e manias, tão humana quanto eu.
Parecia que, finalmente, podíamos enxergar a beleza da simplicidade da vida. Fui até a janela do meu quarto, acendi um cigarro e fiquei observando a rua, enquanto uma música dos Acústicos & Valvulados começava a tocar. Era “Fim de Tarde com Você”, de 1999, composição de Paulo James.
Conhecia aquela melodia, fazia parte da minha história, mas naquele instante aconteceu algo que só a arte consegue provocar: ouvi uma canção antiga como se ela tivesse sido escrita para um homem que eu ainda não era.
Então comecei a reinterpretar: e se a ideia de descansar no andar de cima fosse, na verdade, uma imagem do céu? E se uma despedida rabiscada no papel não fosse de um amor ou de um encontro, mas da própria vida? E se o fim da tarde não anunciasse a chegada de alguém, e sim a visita inevitável da morte?
A beleza de uma canção está também no que ela permite nascer dentro de quem a escuta. Foi, então, que me imaginei com mais de noventa anos. Cabelos brancos, óculos no rosto, uma roupa elegante — afinal, até a velhice merece certa vaidade.
Sentado junto à janela de uma casa bonita, com árvores ao redor e o sol se despedindo atrás dos telhados. Numa mão, um cigarro; na outra, meu primeiro livro, lançado em 2026, já antigo, talvez com páginas amareladas.
Sobre o parapeito, uma xícara de café soltando aquela fumaça que parece desenhar sonhos e pensamentos no ar. Naquele futuro inventado, comecei a receber visitas. Não eram fantasmas. Eram as versões de mim que o tempo deixou pelo caminho.
Veio primeiro o menino, curioso, de coração puro, hiperativo, cheio de perguntas, que ainda não sabia quantas respostas a vida lhe recusaria.
Depois, apareceu o adolescente, ao mesmo tempo irresponsável e aventureiro, convencido de que o mundo era grande demais para que ele ficasse parado no mesmo lugar.
Surgiu também o adorável cafajeste, que amou, errou, exagerou e, certamente, deixou algumas desculpas por pedir…
Encontrei o homem que se perdeu e que, com dificuldade, aprendeu a voltar para si. O jornalista que descobriu histórias nas pessoas comuns. O poeta que tentou dar nome ao que sentia.
E, finalmente, o cronista que passou a transformar pequenos acontecimentos em palavras… talvez porque escrever seja uma forma delicada de impedir que tudo aquilo que aprendi desapareça…
Vi também aquela mulher que amei intensamente de maneira platônica, um amor que não precisou se realizar para permanecer dentro de mim pela eternidade…
E vi a filha que nunca tive, mas que a vida, contrariando a biologia e a lógica, colocou no meu caminho.
Descobri que existem parentescos que não começam no sangue: começam na alma e no afeto.
E, acima de todos esses encontros, apareceu minha mãe. O amor paciente de uma mulher que me viu nascer, cair, levantar e envelhecer…
Às vezes, desejamos grandes conquistas, mas a felicidade pode estar no simples ato de descer uma escada e abraçar quem amamos.
Pensei também na estranha solidão de quem vive rodeado de gente, enquanto outros se sentem completos com um simples café, uma boa conversa ou, então, o canto distante de um pássaro…
E compreendi outra coisa: talvez a maturidade não seja aprender a viver sem problemas. Talvez, seja deixar de fabricar tragédias quando a vida nos oferece paz…
A finitude, vista daquela janela imaginária, já não me parecia uma ameaça. Ela apenas tornava mais preciosos os abraços, os domingos e as palavras que tantas vezes deixamos para depois.
Se os dias fossem infinitos, talvez nenhum tivesse urgência de ser amado… Voltei, então, ao meu tempo dos pensamentos, ainda com 58…
O livro ainda era uma conquista recente. O café podia ser feito. E ainda havia histórias esperando para nascer.
Talvez, daqui a trinta e tantos anos, se eu tiver o privilégio de estar naquela outra janela, ouça novamente essa música e me lembre exatamente deste domingo.
Então, sentirei saudade do homem que hoje sou – do mesmo modo que hoje sinto saudade do menino que fui.
Sorri diante dessa pequena ironia: passei a tarde imaginando o futuro e descobri que ele poderá sentir falta do meu presente. Quanto à morte, não há motivo para antecipar nossa conversa.
Quando chegar a hora, talvez eu a receba com a serenidade de quem viveu, amou e escreveu o que pôde.
Mas não hoje… Hoje, ainda quero ficar um pouco mais na janela. Minha mãe está ali. E o mundo, apesar de tudo, continua bonito.
Talvez, essa seja a maior descoberta de todas: a felicidade que um dia será lembrada com saudade pode estar acontecendo exatamente agora. E o fim da tarde, por enquanto, ainda pertence à vida…
* Fabio L. Borges, jornalista, cronista e poeta gaúcho
