Mais velho dos filhos do presidente Jair Bolsonaro, o senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), com 37 anos, viu seu capital político desidratar no primeiro mês do governo e levou para dentro do Palácio do Planalto a primeira crise da gestão. Depois de quatro mandatos na Assembleia Legislativa do Estado do Rio com atuação voltada principalmente para projetos em defesa das forças de segurança e bombeiros militares e um aumento, na última legislatura, de propostas voltadas ao consumidor, Flávio era chamado de “Zero Um” pelo pai e visto como possível candidato à presidência do Senado ou a líder do PSL na Casa. Mas o mais articulado e ponderado dos três filhos políticos de Bolsonaro, que deve deixar a presidência da seção fluminense do partido, foi citado pelo Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) em relatório sobre movimentações financeiras atípicas e viu seu nome supostamente envolvido com milícias. Agora, assumirá uma cadeira na Casa sob a ameaça de possível investigação no Conselho de Ética.
Na campanha eleitoral, depois de Bolsonaro levar uma facada e ficar internado no primeiro turno, Flávio tornou-se o “cabeça” de um núcleo político formado por dirigentes do PSL, parlamentares e empresários. Enquanto Carlos e Eduardo comandavam as redes sociais e envolviam-se em polêmicas, Flávio manteve-se na articulação política e buscou criar um grupo próprio no Rio, ao aproximar-se do então candidato Wilson Witzel – eleito governador na onda de sucesso dos Bolsonaro, depois de colar sua imagem à do presidente.
Com Jair Bolsonaro eleito, Flávio participou ao lado de Carlos e Eduardo da escolha de ministros. Entre eles, o chanceler Ernesto Araújo, sabatinado pelos irmãos.
Autor de biografia “Mito ou Verdade”, de Jair Bolsonaro, Flávio ingressou na política patrocinado pelo pai e manteve-se durante seus 16 anos de vida parlamentar próximo a Bolsonaro, seguindo os passos dele ao migrar do PP para o PSC e PSL. Antes de disputar sua primeira eleição, trabalhou por quase dois anos, entre dezembro de 2000 e junho de 2002, na Câmara como assessor técnico no PPB (atual PP), partido ao qual o pai estava filiado. No mesmo período, porém, acumulava a faculdade de Direito a mais de mil quilômetros dali, no Rio de Janeiro, cidade onde também fazia um estágio na Defensoria Pública, como divulgou reportagem da BBC. Em Brasília, deveria cumprir carga horária de 40 horas semanais. O mesmo cargo fora ocupado pela então mulher de Bolsonaro, Ana Cristina.
Flávio foi eleito aos 21 anos como deputado estadual pelo PP em 2002, com patrimônio que se resumia a um automóvel Gol de R$ 25,5 mil. A trajetória política ajudou a engordar o patrimônio do parlamentar. Em quatro anos, o valor dos bens declarados pulou para R$ 385 mil. Em 2010, aumentou para R$ 690,9 mil, subindo para R$ 714 mil na eleição de 2014 e dois anos depois o montante declarado mais do que dobrou: R$ 1,45 milhão, em 2016. Na eleição de 2018, registrou na Justiça Eleitoral ter R$ 1,74 milhão em bens.
A votação também cresceu com a onda Bolsonaro de 2018. Foram 4,38 milhões de votos na eleição para o Senado, ante os 424 mil obtidos na disputa pela Prefeitura do Rio, dois anos antes. Na primeira votação, foram 31,2 mil votos. Em 2016, antes do “efeito Bolsonaro” nas urnas, o parlamentar mostrou que seu potencial eleitoral estava crescendo. Ao candidatar-se à Prefeitura do Rio, apesar de aparecer mal nas pesquisas durante a campanha, ficou em quarto lugar, com 14% dos votos válidos.
Na eleição para prefeito, a distribuição de votos já mostrava o peso do apoio dado às causas ligadas aos setores de segurança e militares. Flávio venceu apenas em uma zona eleitoral, a 210ª, que engloba partes dos bairros de Bento Ribeiro, Campo dos Afonsos, Jardim Sulacap e Vila Valqueire, área com forte influência de militares. Na 210ª zona eleitoral, Flávio teve 24,06% dos votos. Em outras seis zonas eleitorais na região, Flávio ficou em segundo, atrás apenas do candidato do PRB, Marcelo Crivella, que acabou eleito. Duas dessas zonas eleitorais, que abrangem o bairro de Campo Grande, ficam onde há atuação de milícias.
A votação em bolsões de forte influência militar é consequência da atuação parlamentar de Flávio, que nos quatro mandatos como deputado estadual no Rio ficou conhecido como aquele dentro do clã Bolsonaro com maior trânsito com a oposição e atuou de forma a atender o interesse de policiais e militares. Em 2007, por exemplo, defendeu em discurso que policiais só fossem presos após trânsito em julgado. “Para mim, até prova em contrário, até uma sentença transitada em julgado, acredito na palavra do policial, que pelo menos deveria valer mais do que a palavra de bandidos, de traficantes”.
