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Flávio e Lula aceleram estratégias para tentar levar às urnas 33 milhões de faltosos

O primeiro turno das eleições presidenciais de 2026 registrou a maior taxa de abstenção deste século, de 21,1%. (Foto: Divulgação)

O primeiro turno das eleições presidenciais de 2026 registrou dois recordes: a menor diferença entre os candidatos que avançaram para a rodada decisiva, de 2,2 milhões de votos a mais para Flávio Bolsonaro sobre Lula, e a maior taxa de abstenção deste século, de 21,1%, equivalente a 33,4 milhões de eleitores. Diante desses números, os finalistas definiram como prioridade convencer quem não votou a sair de casa e digitar uma opção na urna no próximo dia 25. Para a campanha petista, a redução da abstenção seria uma das chaves para a virada sobre o adversário.

“São 30 milhões que não foram votar. Possivelmente tem uma causa: desinteresse. A responsabilidade é nossa de devolver o interesse para ele participar do processo eleitoral”, afirmou Lula. Já o oposicionista aposta na iniciativa para abrir uma vantagem maior. “Tem muita gente que votou no primeiro turno e, no segundo turno, acha que já está tranquilo e não vai votar. Gente, pelo amor de Deus, não façam isso”, declarou o senador, que é candidato pelo PL. Num páreo tão acirrado, todo e qualquer voto pode fazer a diferença.

Com base em dados coletados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em eleições passadas, pode-se dizer que a abstenção costuma ser maior em nichos nos quais Lula leva vantagem sobre Flávio Bolsonaro. Em 2022, por exemplo, a ausência chamou atenção entre jovens e pessoas com ensino fundamental ou médio incompleto. Em desvantagem na corrida, o presidente não quer abrir mão de nem um voto sequer.

Um documento interno da campanha de Lula a que a revista Veja teve acesso, produzido depois do primeiro turno, registra a importância de combater a abstenção, mas ressalta que o candidato à reeleição também precisa recuperar apoios que perdeu entre as duas últimas campanhas, além de conquistar parcela dos votos destinados a outros candidatos, como Augusto Cury (Avante), Ronaldo Caiado (PSD) e Renan Santos (Missão). “Estimular o comparecimento resolve uma parte pequena da distância. O resto vem de quem volta para Lula e do que só a mensagem fecha”, orienta o roteiro.

A “mensagem”, no caso, significa divulgar na propaganda eleitoral de TV e rádio, nas ruas e nas redes sociais que um quarto mandato de Lula produzirá um “governo amplo”, voltado ao diálogo e atento ao custo de vida. O presidente procura eleitores em várias frentes porque, se depender apenas da redução da abstenção, terá de realizar um milagre de conversão de votos, como deixa claro o documento do PT: “se pelo menos 40% dos que se ausentaram no primeiro turno votarem em Lula, a eleição está ganha”.

Não é pouca coisa, já que os tais 40% correspondem a mais de 13 milhões de eleitores, uma vez e meia a votação conquistada por Cury, Caiado e Renan Santos juntos. Mesmo que haja uma mobilização dessa envergadura, nada garante que os futuros votantes escolherão Lula no segundo turno. Por isso, a campanha petista priorizará a redução da abstenção em redutos eleitorais nos quais o presidente teve desempenhos expressivos no primeiro turno. É o caso do Nordeste.

Maior colégio eleitoral da região, a Bahia elegeu uma chapa majoritária petista no último dia 4, conferindo novos mandatos ao governador Jerônimo Rodrigues e ao senador Jaques Wagner e elegendo, também para o Senado, o ex-ministro da Casa Civil Rui Costa. Na rodada inicial, Lula teve 66,2% dos votos válidos no estado, contra 28,5% do rival do PL. Agora, o trio petista está empenhado em elevar a votação no presidente para 75% no segundo turno, o que representaria um ganho líquido próximo de 800.000 votos. Só na capital baiana, 461 000 dos quase 2 milhões de eleitores faltaram, o equivalente a 23,4% do total. Há movimentos semelhantes em outros colégios da região.

No Ceará, o governador reeleito Elmano de Freitas e o senador Camilo Santana, ex-ministro da Educação, trabalham para ampliar o resultado de Lula em 500.000 votos. Depois de renovarem seus mandatos, Rafael Fonteles, no Piauí, e Lucas Ribeiro, na Paraíba, também prometeram empenho total na reeleição do presidente.

Segundo o documento do PT, uma força-tarefa contra a abstenção deve ter carreatas, panfletagem e abordagens corpo a corpo, em mobilizações feitas município a município por prefeitos e lideranças aliadas, sempre com o cuidado de não desrespeitar a legislação eleitoral, que proíbe partidos, coligações ou qualquer pessoa de oferecer transporte com finalidade eleitoral.

No outro lado da trincheira, Flávio Bolsonaro tem um motivo diferente do de Lula para dar ênfase ao combate à abstenção no segundo turno: evitar a desmobilização. A dianteira no primeiro turno, a avalanche de direita na Câmara e no Senado e o saldo positivo para o PL e aliados nas eleições para governos estaduais geraram um certo clima de oba-oba na campanha do Zero Um. A dimensão das manifestações pró-Lula nas ruas e a guinada da comunicação do PT nas redes acenderam o alerta no QG bolsonarista.

Como resultado, o senador do PL tenta impedir a dispersão de seus apoiadores e de eleitores que rejeitam mais a renovação do mandato de Lula que a ideia de eleger o filho mais velho de Jair Bolsonaro. Segundo o professor de ciência política da Universidade do Estado do Rio de Janeiro Fábio Vasconcellos, análises do Instituto Representação e Legitimidade Democrática indicam que a eleição de governadores aliados em primeiro turno gera desmobilização e reduz o ganho de votos do candidato presidencial nesses estados no segundo turno, podendo até aumentar a abstenção em alguns casos. “O clima de ‘já ganhou pode levar uma fatia, não muito grande, acredito, a deixar de ir votar. Só que uma fatia, por menor que seja, pode pesar em uma eleição extremamente competitiva”, ressalta. As informações são da revista Veja.

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