Em entrevista Globo, o presidenciável Flávio Bolsonaro (PL) afirmou ter mudado de opinião e decidido apoiar o fim da escala 6×1 por conta da campanha eleitoral. Disse ainda que “não está no radar” oferecer um cargo em um eventual governo ao pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, atualmente em prisão domiciliar. Flávio não descartou de forma taxativa uma participação do pai na sua gestão; por outro lado, negou a hipótese de o irmão, o deputado cassado Eduardo Bolsonaro, assumir o posto de chanceler. Buscando se esquivar de maiores esclarecimentos sobre sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro e sobre inconsistências em propostas de ajuste fiscal, o candidato procurou redirecionar essas cobranças ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Flávio fez uma série de promessas com apelo eleitoral, como a de não reverter o fim da escala 6×1, cuja emenda constitucional foi promulgada ontem pelo Congresso. Embora se opusesse inicialmente à medida, ele votou a favor no Senado nesta semana, às vésperas do segundo turno.
— Rodei o Brasil inteiro, ouvi muitos trabalhadores. Como ouvi que muitos estavam favoráveis ao fim da escala 6×1, eu votei de acordo com a maioria — afirmou. Não vou (reverter). Foi uma decisão do Congresso Nacional. Então, da minha parte, nenhum questionamento.
Flávio afirmou que manterá o reajuste acima da inflação do salário mínimo, e a vinculação deste com a correção das aposentadorias, além de manter os pisos de investimento anual em saúde e educação. Questionado sobre como entregar um ajuste fiscal de R$ 200 bilhões, prometido por seus assessores econômicos, sem mexer nesses três pilares, o presidenciável do PL fez propostas genéricas, como a de cortar dez ministérios, e projetou “receitas novas” com a exploração de petróleo na Margem Equatorial, projetado para só começar na prática em 2033 — depois, portanto, do próximo mandato presidencial. Flávio reafirmou que não disputará a reeleição, mesmo que o mandato seja mantido em quatro anos. Ele alegou ainda que o “maior ajuste fiscal é tirar o Lula”.
Em mais de um momento, ao ser instado a explicar propostas e posicionamentos públicos, o candidato optou por criticar o atual presidente. Ao ser lembrado, por exemplo, sobre o episódio em que Bolsonaro admitiu, em uma reunião ministerial gravada, que desejava interferir na Polícia Federal, Flávio minimizou a declaração do pai e acusou Lula de colocar “um amigo dele na direção da PF”.
Flávio evitou precisar qual será a influência de Bolsonaro em um eventual governo, e indicou que buscará se aconselhar com ele.
— O presidente Bolsonaro nunca tratou de cargo comigo. Não está no radar — afirmou Flávio, que depois descartou nomear o irmão ministro das Relações Exteriores. — Eduardo não vai ser meu chanceler. Ele é um perseguido político que está denunciando as arbitrariedades que existem aqui no Brasil.
Desvio de perguntas
Flávio chegou a ser advertido pela entrevistadora, a jornalista Renata Lo Prete, por desviar do assunto de perguntas. O presidenciável do PL evitou responder inicialmente, por exemplo, sobre uma proposta defendida por ele no Congresso para retirar a marcação de munições de armas de fogo de forças de segurança, medida criticada por especialistas por abrir brecha para desvio de material para o crime organizado. Ao ser instado a esclarecer o assunto, Flávio disse que a proposta era um “detalhezinho” e uma “coisa muito menor ante o problema que o Brasil tem”.
Flávio chamou de “teses malucas” o argumento de que o aumento da quantidade de armas de fogo tende a elevar índices de violência; pesquisa Quaest divulgada em setembro, porém, indicou que a maioria dos brasileiros considera que limitar o acesso a armas melhora a segurança pública. Ao defender sua posição sobre o assunto, Flávio argumentou que os eleitores que votarem nele “sabem exatamente o que estão levando”, e voltou a buscar um contraponto com Lula, acusando o atual presidente de mudar seus posicionamentos sobre determinados temas às vésperas da eleição.
— Hoje o Estatuto do Desarmamento proíbe o cidadão comum de se defender e autoriza marginais a comprarem armas de guerra — alegou.
A exemplo de entrevistas anteriores, Flávio disse já ter prestado as explicações necessárias sobre sua negociação com Vorcaro, dono do Banco Master, para o aporte de até R$ 134 milhões a pretexto de financiar o filme “Dark horse”, em homenagem ao pai. O candidato do PL buscou comparar esta situação com contratos de patrocínio do Master com o grupo Globo, mas foi lembrado pela entrevistadora que, neste caso, os contratos “obedeceram a regras de transparência” e não tiveram “qualquer relação com a linha editorial” dos veículos jornalísticos. O contrato negociado por Flávio com Vorcaro, por outro lado, só veio à tona após reportagem do portal Intercept Brasil, e sua existência chegou a ser negada pelo presidenciável do PL, que depois teve que admiti-lo. (Com informações do portal O Globo)
