O Fundo Monetário Internacional (FMI) revisou suas projeções para o crescimento da economia global e de vários países para este e o próximo ano, em meio à guerra no Irã. A previsão para o avanço do Produto Interno Bruto (PIB) mundial em 2026 caiu a 3,1%, ante 3,3% calculados em janeiro. Já a estimativa para o Brasil aumentou de 1,6% para 1,9%.
As estimativas estão no relatório Perspectivas da Economia Mundial (World Economic Outlook), divulgado nessa terça-feira (14), no qual o Fundo também alerta para a alta da inflação.
Segundo o texto, o cenário de alta nos preços dos combustíveis, já considerado pela Agência Internacional de Energia (AIE) como o maior choque do petróleo da história, foi responsável por interromper a tendência de expansão do PIB global, que vinha em uma trajetória consistente de crescimento.
“Antes do conflito, estávamos prestes a revisar para cima nossa projeção de crescimento global, refletindo o dinamismo contínuo da economia mundial, sustentado por um boom de investimentos em tecnologia, alguma redução nas tensões de política comercial, apoio fiscal em alguns países e condições financeiras favoráveis. A guerra no Oriente Médio deve sobrepor-se a esses fatores subjacentes”, diz o relatório.
Otimismo com o Brasil
Brasil e Rússia foram os países que tiveram as maiores revisões otimistas ( de 0,3 ponto percentual) entre as 17 maiores economias globais. Ainda assim, a expansão da economia brasileira é baixa em relação a outras nações emergentes. Índia e China devem crescer 6,5% e 4,4% em 2026.
Segundo o relatório, a guerra deve ter um saldo positivo para o Brasil neste ano, pelo fato de o país ser um exportador líquido de energia. Ainda assim, o país vai crescer menos que outras nações produtoras de petróleo, como Arábia Saudita e Nigéria. As previsões para essas duas economias são de 3,1% e 4,1%, respectivamente.
Para 2027, o Fundo está mais pessimista em relação à economia brasileira. A estimativa é de crescimento de 2% do PIB, levemente acima do previsto para este ano, mas 0,3 ponto percentual abaixo da projeção feita em janeiro. A maior parte dos países teve a previsão de 2027 revisada para baixo. A estimativa para a economia global, porém, manteve-se estável em 3,2%.
De acordo com o FMI, “a desaceleração da demanda global, os custos mais altos de insumos (incluindo fertilizantes) e condições financeiras mais restritivas devem prevalecer, reduzindo o crescimento” da economia brasileira.
O Fundo ressalta, no entanto, que “reservas internacionais adequadas, baixa dependência de dívida em moeda estrangeira, grandes reservas de caixa do governo e uma taxa de câmbio flexível devem ajudar o país a enfrentar o choque”.
Alerta para a inflação
Com relação à economia mundial, os economistas só não projetaram uma desaceleração maior porque consideram a hipótese de que a guerra terá duração relativamente curta, além de levar em conta fatores favoráveis que compensam parcialmente os choques negativos do conflito.
Entre eles estão as tarifas mais baixas e as políticas adotadas por diversos países para conter os impactos da guerra, como as medidas de subvenção e desoneração para combater a alta de preços dos combustíveis no Brasil. O documento fala ainda de efeitos de carregamento estatístico diante de resultados mais fortes do que o esperado no fim de 2025 e no primeiro trimestre de 2026.
No entanto, o FMI ressalva que, caso o conflito se prolongue além do previsto ou a retomada da produção e do transporte de energia demore mais, o impacto sobre o crescimento global tende a ser mais intenso. Para dimensionar esse risco, o relatório apresenta dois cenários negativos, um adverso e outro mais severo. Em ambos, a inflação cresceria além do previsto.
Um cenário adverso poderia ocorrer diante de um fechamento mais prolongado do Estreito de Ormuz e novos danos a instalações de extração e refino. Os preços de energia subiriam de forma acentuada em 2026 e depois recuariam gradualmente. A inflação subiria para 5,4%, com aperto das condições financeiras, e o crescimento global desaceleraria para cerca de 2,5% em 2026. O impacto persistiria em 2027, mas de forma mais moderada.
Já no cenário severo, caso as disrupções no fornecimento de energia se estendam para o próximo ano, o choque seria mais intenso e duradouro. Os preços do petróleo e do gás disparariam e permaneceriam elevados por mais tempo, a inflação subiria de forma mais persistente, passando de 6%, e os mercados financeiros reagiriam com maior aversão ao risco. Nesse quadro, o crescimento global cairia para perto de 2%, em um nível próximo de recessão.
Na visão dos economistas do FMI, os bancos centrais devem priorizar o combate à inflação, agindo com firmeza para reancorar as expectativas, mesmo que isso pese sobre o crescimento no curto prazo. Caso o choque de energia seja mais duradouro, um aperto monetário coordenado entre países para frear a demanda global também pode ajudar a conter os preços, segundo o documento.
O relatório alerta ainda que governos devem evitar medidas fiscais mais amplas, sobretudo se tiverem uma menor margem orçamentária. Ações como subsídios generalizados ou controle de preços podem ser populares nesses contextos, mas tendem a ter alto custo e baixa eficácia.
A recomendação é adotar políticas mais focalizadas, temporárias e alinhadas ao planejamento fiscal, além de evitar estímulos em um ambiente de inflação elevada, para não dificultar a atuação dos bancos centrais. As informações são do jornal O Globo.
