Os gastos militares globais cresceram pelo oitavo ano consecutivo em 2022, para o recorde histórico de US$ 2,24 trilhões, com um forte aumento na Europa, principalmente devido aos gastos russos e ucranianos, informou o think tank sueco Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI).
Os gastos globais aumentaram 3,7% em termos reais ante o ano anterior, mas os gastos militares na Europa subiram 13% – seu maior aumento anual em pelo menos 3 décadas, segundo o SIPRI.
Assim, pelo oitavo ano seguido as nações do mundo gastaram mais dinheiro com suas forças armadas do que no ano anterior. Sem considerar a inflação, o aumento seria de 6,5%.
Os EUA continuam liderando a lista, com ampla vantagem, seguidos por China e Rússia. A Alemanha vem em sétimo lugar.
O maior aumento nos gastos ocorreu na Europa, que registrou alta (ajustada pela inflação) de 13%, o maior crescimento anual na era pós-Guerra Fria. Isto deveu-se principalmente ao salto das despesas militares na Rússia e na Ucrânia. A ajuda militar a Kiev e as preocupações com o aumento da ameaça da Rússia, de acordo com Sipri, também influenciou as decisões de gastos de muitos outros países.
Muitos países do antigo bloco oriental mais do que dobraram seus gastos militares desde 2014 – o ano da anexação da Crimeia pela Rússia. Em 2022, os países da Europa Central e Ocidental gastaram um total de 345 bilhões de dólares em defesa. Com isso, superaram, considerando a inflação, pela primeira vez os valores de 1989, quando a Guerra Fria terminou.
“A invasão russa da Ucrânia em fevereiro de 2022 afetou diretamente as decisões desses países. Foi o que demonstraram, por exemplo, em planos plurianuais de aumento de gastos”, disse o especialista em Sipri, Diego Lopes da Silva. Como resultado, podem ser esperados novos aumentos nos próximos anos.
“Independentemente de as economias estarem indo melhor ou pior do que o esperado, os militares estão absorvendo mais recursos financeiros do que nos anos anteriores ou mesmo mais do que nunca na história”, disse Nan Tian, pesquisador sênior do Sipri e um dos autores do relatório.
Os gastos com defesa entre os membros da Otan, a aliança militar da qual muitos países europeus fazem parte, vem aumentando desde pelo menos 2014. Foi quando a Rússia atacou a Ucrânia pela primeira vez, anexando ilegalmente a península da Crimeia e apoiando separatistas na parte oriental do país. Os membros da Otan concordaram em atingir uma meta de gastos com defesa de 2% do PIB nacional até 2024, e muitos deles estão lentamente chegando lá.
Os governos estão respondendo a uma sensação crescente de deterioração da segurança e, assim, contribuindo para o aumento dos gastos com defesa. Ao mesmo tempo, no entanto, os dados do Sipri mostram que a onda de gastos pode não ser tão pronunciada quanto as manchetes e os formuladores de políticas às vezes fazem parecer.
Embora os gastos reais tenham aumentado, chegando a 2,2 trilhões de dólares combinados em 2022, como parcela do PIB, eles são 0,1% menores do que em 2013. Isso ocorre apesar dos aumentos de dois dígitos na última década em muitos países, incluindo Estados com armas nucleares e aqueles conhecidos por priorizar suas forças armadas, como China (63%), Índia (47%) e Israel (26%).
Em cada um desses lugares, no entanto, os gastos com defesa diminuíram como porcentagem da produção econômica nacional.
A discrepância sugere que a expansão econômica ultrapassou os orçamentos nacionais para áreas como defesa, mesmo que os números em dólares possam parecer impressionantes; e a inflação rápida e recorde forçou os governos a gastarem mais.
Em outras palavras, eles perderam o poder de compra. Um ministério da defesa enfrenta pressões de preços semelhantes ao comprar um esquadrão de caças a jato que uma família normal enfrenta ao comprar uma caixa de ovos.
Os países que procuram não apenas manter, mas aumentar ou atualizar suas forças armadas, precisam gastar ainda mais, é o que reflete o relatório do Sipri. “Apesar dos países terem aumentado os gastos em 15%, em termos nominais, se você ajusta a inflação, eles até diminuem, dependendo do caso”, diz Nan Tian.
A inflação tem sido um problema político, particularmente na Alemanha, que no início do ano passado prometeu 100 bilhões de euros em verba adicional para suas forças armadas, em resposta à agressão russa, depois de anos enfrentando críticas por não gastar o suficiente.
A soma, que é adicionada ao orçamento regular de defesa da Alemanha, não está incluída nos dados do Sipri, porque esse dinheiro ainda não estava disponível para ser gasto no ano passado. Mesmo quando os fundos começarem a fluir, a Alemanha ainda pode ficar aquém dos objetivos da Otan, de acordo com uma análise do Instituto Econômico Alemão no final do ano passado.
Os EUA, que sempre é de longe o líder em produção militar, continua na ponta em 2022, com um orçamento oficial de defesa de 877 bilhões de dólares, segundo o relatório. Isso representa 39% dos gastos militares globais.
Esses gastos com defesa são menores, como porcentagem do PIB dos EUA, do que em 2013, e estão muito longe do recorde alcançado na Guerra Fria de quase 10%.
A China está em um distante segundo lugar, gastando 292 bilhões de dólares no ano passado. Apesar da diferença entre as duas maiores economias do mundo, muitas autoridades americanas e analistas de segurança alertam que a China está ganhando vantagem militar. As informações são da emissora internacional de notícias da Alemanha Deutsche Welle.
