Perplexo e receoso. Foi dessa forma que o funcionário público aposentado Edgar Silva Pereira, 64 anos, recebeu a informação de que seus dados pessoais estavam sendo trocados em fóruns abertos na internet. Telefone, endereço, CPF, e-mail e número do cartão de crédito foram, de alguma forma, roubados por criminosos digitais. E ele é apenas uma das vítimas no País dessa modalidade de crime silencioso, que gera perdas milionárias a pessoas físicas e empresas.
Pereira teve as suas informações roubadas por hackers em junho passado. Os criminosos tentaram movimentar 16 mil reais em seu nome, mas as transações foram bloqueadas pelo banco. Assim, ele sabia do ataque, mas não da exposição dos dados. Precavido, o ex-funcionário público diz comprar apenas em lojas conhecidas, não aceitar promoções recebidas por e-mail e ser adepto do sistema de segurança que pede confirmação via SMS das compras realizadas pelo cartão de crédito. Foi apenas por isso que ele conseguiu evitar o prejuízo financeiro.
Fenômeno mundial.
A situação vivida pelo aposentado é um reflexo de um fenômeno que acontece em todo mundo. Um relatório divulgado em fevereiro passado pela companhia holandesa de segurança digital Gemalto indica que mais de 1,5 mil vazamentos de dados por hackers em 2014 levaram ao comprometimento de mais de um bilhão de informações durante o ano – um aumento de 78% em comparação com as informações comprometidas em 2013.
Já a Kaspersky Lab, uma das maiores empresas de segurança de TI (tecnologia da informação) do mundo, informa ter registrado o bloqueio de mais de 6,2 bilhões de ataques maliciosos em computadores e dispositivos móveis por seus antivírus em 2014 – 1 bilhão a mais do que em 2013.
Por aqui, o País ainda carece de uma base de dados centralizada e oficial sobre ataques digitais, porém, levantamentos diversos mostram que vítimas como Pereira são cada vez mais numerosas. Informações do Cert.br (Centro de Estudos, Respostas e Tratamento de Segurança) indicam que, de 2013 para 2014, o número de notificações de ciberataques reportadas à entidade aumentou 197%: de 352.925 incidentes para 1.047.031, a maioria absoluta (44%) composta de tentativas de fraudes. “O aumento dos ataques em si é uma tendência mundial, uma vez que a internet passa a ocupar, cada vez mais, um importante papel na sociedade”, avalia Miriam von Zuben, analista de segurança do Cert.br.
Chefe do grupo de repressão a crimes cibernéticos da PF (Polícia Federal), o delegado Stênio Santos afirma ver o crescimento dos crimes digitais no Brasil como um fenômeno natural diante da popularização do acesso à tecnologia e da implementação de novas tipificações desses crimes a partir de legislações como a Lei Carolina Dieckmann. De acordo com ele, o perfil do cibercriminoso é variado.
Como consequência dessa dinâmica, cresce o volume de ações consideradas mais simples, como o phishing. Esse ataque consiste em enviar e-mails e mensagens de texto em massa, com arquivos maliciosos ou links para páginas falsas, que simulam as de empresas legítimas. Internautas desavisados então informam seus dados pessoais, até mesmo bancários, que vão parar nas mãos de criminosos
Já o chamado “kit boleto” é mais sofisticado, e aproveita uma forma de pagamento exclusiva do Brasil. Os hackers exploram táticas, inclusive o phishing, para instalar um software na máquina da vítima. Quando o consumidor gera um boleto pela internet, o programa altera o código de barras, direcionando o pagamento para uma conta bancária sob seu controle
