O Brasil recorre agora a empresas e startups para destravar o plano de construir e colocar em órbita foguetes nacionais que lançam micro e nanosatélites. O governo federal escolheu dois conjuntos de empresas e startups para tocar os projetos, com investimento previsto de R$ 370 milhões.
A previsão é de que os foguetes sejam entregues entre o fim de 2026 e o início de 2027. Antes restrita a órgãos públicos civis e militares, a corrida espacial tem envolvido cada vez mais a iniciativa privada. Esse movimento (“new space”) ainda dá seus primeiros passos no Brasil, e tem Elon Musk e Jeff Bezos entre seus nomes mais famosos.
Conhecidos também por Veículos Lançadores de Pequeno Porte (VLPP), esses foguetes possuem a capacidade de transportar e colocar micro e nanosatélites em órbita baixa.
Trata-se de um tipo de tecnologia que o País nunca conseguiu dominar por completo, mas que já a ambiciona desde os anos 1970 e que é prevista como meta na Política de Desenvolvimento das Atividades Espaciais (Pndae) desde 1994. Se o projeto obtiver o sucesso esperado, será um capítulo inédito na história do programa espacial brasileiro.
A última tentativa de colocar um foguete 100% nacional em órbita foi em agosto de 2003, quando o equipamento (o VLS) pegou fogo e matou 21 civis envolvidos no projeto. Depois disso, houve novos planos de construção, mas nenhum lançamento foi à frente.
Nas últimas décadas, o Brasil foi ultrapassado por outros países emergentes, como China e Índia, na corrida espacial. Dominar esse tipo de tecnologia, dizem especialistas, ajuda o País a se desenvolver em diversas áreas, como telecomunicações, monitoramento por satélites e aviação.
As empresas foram eleitas em dezembro, por meio de edital do Ministério da Ciência e Tecnologia e da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) para construir os dois foguetes. A previsão é de que sejam entregues em 36 meses (entre o fim de 2026 e o início de 2027), e que as atividades possam ser exploradas comercialmente no futuro. Se der certo, claro, o que não é tarefa fácil.
“Até pouco tempo atrás, só os Estados dispunham de fazer veículos lançadores, como Estados Unidos, Índia, Rússia e China. Precisava de um poder de compra do Estado para alavancar um projeto com essa complexidade”, diz Rodrigo Leonardi, diretor da Agência Espacial Brasileira.
“O que se vê, de 15 anos para agora, é que nesse conceito do New Space, a iniciativa privada começa a ter papel mais preponderante no desenvolvimento dessa tecnologia”, afirma Leonardi.
Para ele, uma das vantagens da iniciativa privada é a celeridade nos processos. No setor público, a compra de cada peça envolve trâmites burocráticos. “Ficamos esse tempo todo com trauma do VLS e ainda tentando fazer um veículo lançador no âmbito da iniciativa pública, que tem suas limitações e não é tão ágil como gostaríamos, por conta de licitações.”
Segundo os empresários à frente dos projetos, a verba oferecida pelo governo consegue cobrir todo o desenvolvimento dos foguetes, dentro das especificações técnicas e objetivos apresentados no edital. Mas, no caso de o dinheiro não ser o suficiente, caberá às empresas custear os valores restantes da operação.
No caso do grupo de empresas liderado pela Akaer, uma das vencedoras do edital ao lado da Cenic Engenharia, o subsídio não será usado apenas para a manufatura do VLPP, mas também na construção de fábricas de peças e de insumos de propelentes, e investimento nas instituições de ensino superior envolvidas, por meio de bolsas de pesquisa e aprimoramento de laboratórios.
O primeiro conjunto receberá um aporte de R$ 189.999.780 e o segundo, R$ 180.461.174. O projeto, no entanto, não sairá de graça para as empresas. Os grupos coordenados pela Cenic e Akaer terão de colocar, do próprio bolso, cerca de R$ 2 milhões e R$ 5 milhões, respectivamente, como contrapartida.
Especialistas dizem que é comum que empresas e startups do segmento recebam investimentos públicos e privados para o desenvolvimento das atividades espaciais. Os valores podem chegar, no máximo, a US$ 500 milhões, mas existem empresas que conseguiram fazer um lançamento com US$ 5 milhões.
Além disso, o investimento é de risco: no próprio edital, a agência cita a probabilidade “de insucesso”, uma vez que “o conhecimento técnico-científico” do Brasil para esse tipo de tecnologia é “insuficiente” para assegurar um lançamento bem-sucedido.
“A chamada pública já é voltada para aplicar esse tipo de recurso em projetos de alto risco tecnológico, com chance de insucesso no desenvolvimento da solução”, diz Leonardi. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
