Nos últimos dias, executivos das maiores empresas de tecnologia, varejo e bens de consumo tentaram abordar questões a respeito da situação da economia dos Estados Unidos, que parece estar cambaleando, à beira de uma recessão.
Não é nada simples. No Vale do Silício, os lucros das empresas de tecnologia como Google e Apple costumam superar as expectativas, mas executivos disseram que há sinais de alguma desaceleração do segmento nos gastos do consumidor. A gigante de bens de consumo Procter & Gamble disse ter a expectativa de um 2023 mais difícil, embora ainda esteja aumentando os preços. A Mastercard disse que as despesas estavam estáveis entre os ricos, mas desaceleravam entre os consumidores de baixa renda.
Enquanto isso, tanto o Walmart quanto a Best Buy alertaram que, quando divulgarem seus resultados neste mês, os números serão piores que o esperado – em grande parte por causa das mudanças nos hábitos dos consumidores.
“Estamos vendo um forte crescimento”, disse o diretor financeiro da Amazon, Brian Olsavsky. “Mas estamos cientes de que as coisas podem mudar depressa.”
Quatro vezes por ano, as maiores empresas de capital aberto divulgam quanto dinheiro estão ganhando – ou perdendo, além de suas perspectivas futuras. Esses relatórios oferecem um retrato útil para entender como os consumidores estão gastando, além de serem uma métrica importante para prever o desempenho econômico.
Mas, assim como os indicadores econômicos do governo americano divulgados na semana passada, inclusive com uma queda no Produto Interno Bruto (PIB) e um ligeiro aumento nos gastos do consumidor, os lucros das empresas estão mostrando que a economia dos Estados Unidos está em apuros.
As pessoas ainda estão gastando dinheiro, porém a inflação significa que mais desses recursos estão indo para o combustível e outras necessidades e menos para categorias como roupas e eletrônicos. A taxa de desemprego continua baixa, mas algumas empresas estão pisando no freio nas contratações e outras estão começando a demitir pessoas sem qualquer reserva.
O Federal Reserve (Fed) elevou as taxas de juros mais uma vez na semana passada em uma tentativa de tornar mais difícil para as pessoas solicitar novos empréstimos e continuarem gastando, algo que tem como objetivo desacelerar a inflação e estabilizar a economia. Mas é um equilíbrio frágil, pois algumas empresas já estão informando sinais de alerta.
“Conforme a alta inflação continua e o sentimento do consumidor se deteriora, a demanda do consumidor no setor de eletrônicos tem se atenuado”, disse o CEO da Best Buy, Corie Barry, em um comunicado na última quarta-feira, ecoando comentários recentes do CEO do Walmart, Doug McMillon, de que os preços de alimentos e dos combustíveis estão prejudicando a capacidade das pessoas de comprar roupas e outros bens.
Essas dinâmicas sugerem que os americanos estão começando a ficar cautelosos com o que gastam seu dinheiro.
Thomas Combs, pequeno empresário, 52 anos, que mora em Dallas, disse ter “mudado completamente” a forma como gasta sua renda, inclusive cortando alguns itens como café gourmet e sorvete. Ele disse que consertar seu carro também ficou mais caro, e que está ciente do quanto seria difícil trocar de carro ou mudar para uma nova casa.
“Não gosto de ver as corporações tendo lucros recordes nos últimos trimestres e depois serem informadas de problemas na cadeia de suprimentos, ou nas refinarias, ou o que quer que seja para usarem como justificativa dos preços mais altos ao consumidor”, disse Combs. “Você se torna pessimista, mas percebe que precisa seguir em frente se quiser sobreviver nos EUA de hoje.”
As maiores empresas de tecnologia divulgaram números um pouco menos pessimistas do que Wall Street temia, e os preços das ações de Apple, Amazon, Google e Microsoft subiram depois que seus resultados foram divulgados. Associados aos grandes lucros das empresas de petróleo por causa da disparada dos preços da gasolina, os resultados ajudaram a levar o S&P 500, índice com os ativos das maiores corporações, ao seu melhor mês desde novembro de 2020.
“As pessoas estavam nervosas, era como se uma bomba fosse explodir a qualquer momento, mas isso nunca aconteceu”, disse Tom Essaye, presidente da Sevens Report Research, a respeito dos lucros das empresas de tecnologia. “Por ora, nós meio que nos esquivamos de uma bala.”
Mas isso não impediu que os executivos das empresas de tecnologia manifestassem sérias preocupações. Acessórios da Apple, como relógios e dispositivos para a casa, registraram vendas menores devido a problemas de abastecimento e ao “ambiente macroeconômico”, disse o CEO Tim Cook na quinta-feira. Contudo, ele lembrou que “não era economista”, e chamou atenção para o fato de as vendas do todo poderoso iPhone seguirem firmes e fortes.
