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Gravidez e maternidade alteram funções cerebrais de forma duradoura, diz a ciência

Estudos mostram que a gestação provoca mudanças estruturais e funcionais no cérebro, com impactos que podem durar anos. (Foto: Reprodução)

Não é surpresa que a gravidez traz uma série de mudanças tanto para o corpo quanto para o estilo de vida. Em cerca de 40 semanas, praticamente todos os sistemas do organismo – hormonal, cardiovascular, respiratório, gastrointestinal, urinário, musculoesquelético, dermatológico e neurológico – sofrem alterações para sustentar o desenvolvimento fetal, preparar o parto, a amamentação e os cuidados com o bebê.

Embora muitas dessas mudanças, principalmente as fisiológicas, já estejam bem documentadas, a ciência agora se debruça sobre as alterações cerebrais que começam durante a gestação e persistem mesmo anos após o nascimento do bebê.

Um dos estudos mais influentes sobre o assunto foi publicado na revista científica Nature Neuroscience, em 2016. O trabalho foi feito por meio da análise de imagens cerebrais de mulheres antes de engravidarem e alguns meses após o nascimento do bebê.

Os resultados mostraram que a gravidez está associada a reduções no volume de substância cinzenta, associada à estrutura e função cerebral, especialmente em regiões envolvidas na cognição social e na rede de modo padrão (default mode network), um sistema ligado à autorreflexão e à compreensão do outro.

“Pesquisadores acreditam que não há uma perda de quantidade de neurônios e sim um ajuste desses neurônios. É como se houvesse uma poda da árvore para que ela brotasse mais bonita, digamos de uma maneira metafórica. Esses neurônios são rearranjados para que haja um foco nas tarefas relacionadas à maternidade”, diz a neurologista Ana Luiza Vieira de Araújo, do Einstein Hospital Israelita.

Essas mudanças não são aleatórias, elas ocorreram em redes que podem ajudar a captar os sinais do bebê. As principais regiões afetadas são o córtex pré-frontal, a amígdala e o hipocampo, que são regiões relacionadas à atenção, memória, reatividade e cognição social. Por exemplo, elas indicam maior sensibilidade a pistas sociais, melhor leitura de expressões faciais e maior capacidade de identificar necessidades do bebê.

Mães que perderam mais volume relataram, posteriormente, vínculos mais fortes com seus bebês. Além disso, essas mudanças não desaparecem após a gestação.

“Tem várias alterações estruturais e funcionais para tentar moldar o cérebro da mulher para que ela se torne uma boa mãe para, enfim, cuidar da sua cria. Então, basicamente essas alterações estariam voltadas para facilitar a adaptação cerebral à nova situação que vai vir”, diz a neurologista Sonia Bruch, da Academia Brasileira de Neurologia (ABN).  “Essas alterações que ocorrem no cérebro são duradouras, até mais ou menos dois anos depois do parto, que é justamente a fase em que a criança depende mais da mãe.”

Esse processo de redução de massa cinzenta pode parecer assustador, principalmente quando a maioria das mulheres grávidas relata problemas cognitivos, como falta de atenção, perda de memória, dificuldade de encontrar palavras, de manipular várias informações ao mesmo tempo. Mas em vez de significar perda cognitiva, o cérebro parece trocar certos tipos de desempenho – como lembrar onde estão as chaves – por uma melhor regulação emocional e pela capacidade de antecipar as necessidades da criança.

“Quando se faz os testes cognitivos, a mulher mantém suas capacidades cognitivas intactas, mas no dia a dia ela recebe uma diminuição de performance em tarefas executivas que antes eram mais fáceis, e agora ela tem um pouco mais de dificuldade”, diz Araújo.

Além disso, existem fatores externos que podem contribuir para esse fenômeno de esquecimentos corriqueiros chamado popularmente conhecido como “baby brain”, como estresse, de privação de sono, mudanças de rotina, além da ansiedade e a intensidade emocional do início da parentalidade.

Outro trabalho, publicado em 2024 na revista científica Nature Neuroscience oferece a visão mais abrangente já obtidas sobre as alterações que acontecem no cérebro durante a gravidez ao examinar imagens do cérebro de uma mesma mulher 26 vezes, antes, durante e depois da gravidez. Embora apenas um indivíduo tenha sido analisado, isso representa um feito inédito, já que há uma resistência em realizar esse tipo de exame durante a gestação.

Os resultados do novo estudo confirmaram que a massa cinzenta diminuiu mais de 4% ao longo da gravidez. A equipe também conseguiu demonstrar que essa redução ocorre de forma constante ao longo da gravidez, começando nas primeiras semanas, estabilizando-se por volta da época do parto e persistindo anos após o nascimento.

Essas alterações também estão relacionadas com o aumento das concentrações de dois hormônios sexuais: estradiol e progesterona. A análise também mostrou que a substância branca do cérebro, a parte que conecta diferentes regiões cerebrais, foi fortalecida.

Isso significa que os sinais cerebrais podem viajar com mais rapidez e eficiência.

“Aumentar a conexão na substância branca ajuda, por exemplo, a mãe ficar mais ágil para detectar choro e perceber com mais facilidade o estado emocional da criança. A inteligência emocional aumenta e você se antecipa às necessidades do outro, não às suas necessidades”, afirma o obstetra Eduardo Cordioli, diretor Técnico de Obstetrícia da Pro Matre Paulista.

Essas alterações no cérebro durante a gravidez não cessam após a primeira gestação. De acordo com um estudo de 2026, do Amsterdam UMC, em uma segunda gravidez parece haver um refinamento dessas mudanças, voltadas para novos sistemas neurais.

Enquanto na primeira as mudanças se concentram na rede responsável pela capacidade de interpretar os pensamentos e as emoções de outras pessoas, na segunda, o cérebro atua em sistemas mais especializados, como as redes de atenção que ajudam a direcionar e manter o foco. Isso permite, por exemplo, que a mãe acompanhe múltiplos estímulos simultaneamente, como ajustar automaticamente a postura para segurar um filho enquanto estende a mão para alcançar outro.

“Pode-se supor que essas mudanças preparem a mulher para as demandas acrescidas associadas ao cuidado de vários filhos simultaneamente”, escrevem os autores.

Por outro lado, ainda não está claro se esses padrões se mantêm, se estabilizam ou se sofrem novas alterações com uma terceira gravidez.

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