O Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS) denunciou à Justiça um policial penal e outros três investigados por envolvimento em esquema de lavagem de dinheiro obtido com o furto e receptação de joias, relógios de luxo e moedas de ouro. Conforme a acusação, o caso remonta ao segundo semestre de 2024, em Porto Alegre, tendo familiares do agente como vítimas do esquema.
“Aproveitando-se da relação de confiança com tios e um avô, o servidor subtraiu os bens de uma residência”, relata o promotor responsável pela investigação, Flávio Duarte. Os itens incluem quase 18 quilos do metal precioso (avaliados em R$ 7,8 milhões) e seis relógios (R$ 1 milhão), totalizando R$ 8,8 milhões.
Ele ressalta que o policial penal conhecia e tinha acesso facilitado ao imóvel onde o acervo estava enterrado. “Parte do acervo de ouro vinha sendo acumulada por uma das vítimas desde a década de 1950 e precisou ser transportada em 2023, quando mudou de residência. O policial penal auxiliou pessoalmente na retirada, pesagem, transporte e armazenamento dos materiais.
“A partir daí, o denunciado passou a conhecer com mais exatidão a natureza e a dimensão dos bens, bem como o local em que permaneciam guardados, juntamente com outros itens em ouro, pertencentes aos moradores da casa”, acrescenta o promotor. “Tudo era guardado em local secreto, de conhecimento limitado a um reduzido número de pessoas da família.”
Em 2024, o denunciado passou a dispor das chaves da casa, do controle do portão eletrônico e do conhecimento da rotina da residência. Além disso, exercia autoridade no local perante funcionários:
“Ele podia ingressar e circular naturalmente, sem despertar suspeitas, então se valeu também do conhecimento sobre o esconderijo e as características dos objetos ali depositados. Foi assim que subtraiu os bens, sem necessidade de arrombamento ou ingresso forçado”.
Para retardar a apuração e descoberta dos crimes, o policial trocou as moedas de ouro e quatro relógios por réplicas. Assim, conferiu aparência de integridade ao lote e permitiu que o furto permanecesse oculto por um período mais prolongado.
A denúncia também aponta que um comerciante especializado no mercado de moedas e metais preciosos e um leiloeiro oficial receberam, armazenaram e comercializaram os objetos de origem ilícita, utilizando sua atuação profissional para facilitar a colocação dos bens no mercado. Segundo o Ministério Público, ambos obtiveram vantagem econômica com as negociações.
Maquiagem de capitais
Após a venda dos objetos, ao menos R$ 1,6 milhão resultante do esquema passou por diversas operações financeiras destinadas a ocultar sua origem ilícita. O MPRS constatou que os recursos foram movimentados por meio de contas de terceiros, com pagamentos fracionados e direcionados para compra de bens e pagamento de despesas pessoais, incluindo veículos, moto aquática, equipamentos eletrônicos, viagens, aluguel de imóvel e procedimentos estéticos.
O grupo tinha divisão de tarefas, cabendo ao autor do furto fornecer os bens e indicar o destino dos recursos. A companheira do agente teria participado da lavagem do dinheiro, recebendo valores em conta bancária e sendo beneficiária de despesas pagas com dinheiro proveniente das operações investigadas.
Para o promotor encarregado, os quatro denunciados atuaram de forma coordenada durante aproximadamente dois anos. Já os demais participantes atuaram como operadores financeiros, na comercialização dos objetos, circulação do dinheiro e realização de pagamentos e aquisições em benefício dos integrantes do esquema.
O policial penal está preso preventivamente desde 14 de setembro – quando, ironicamente, trabalhava como servidor cedido ao MPRS. Ele foi denunciado por dois crimes de furto qualificado, bem como lavagem de dinheiro e associação criminosa. Sua companheira é alvo das duas últimas acusações. O mesmo se aplica ao comerciante e ao leiloeiro, sobre os quais também pesam denúncias de receptação qualificada.
Além da pena de prisão, o Ministério Público pede a fixação de um valor mínimo para reparação dos danos causados às vítimas. As informações estão no site mprs.mp.br.
(Marcello Campos)
