Já agredida pelo vizinho do Leste, a Rússia, e também pelo do Oeste, a Alemanha, a Polônia vive com apreensão a guerra na Ucrânia, país com quem divide uma fronteira de 530 quilômetros.
Esta região fronteiriça onde fica a cidade de Przemysl, que sente diretamente os impactos do fluxo de refugiados ucranianos, tem em suas raízes históricas um estado de tensão permanente com a Rússia. E que vai muito além da Otan, a aliança militar liderada pelos EUA, que tem bases por aqui e da qual a Polônia faz parte desde 1999.
“E se Putin, depois dessa, resolver atacar também a Polônia? Já aprendemos: nunca se deve confiar num russo”, dizia num posto da fronteira com a Ucrânia, no último sábado, o polonês Adrian Arkuszewski, que estava acompanhado de uma amiga ucraniana e oferecia gratuitamente aos recém-chegados transporte e acomodação.
Aos 32 anos, Arkuszewski nasceu em 1989, ano que marcou a queda do Muro de Berlim e o fim do comunismo na Polônia, país que por mais de quatro décadas foi praticamente um satélite de Moscou.
Sua preocupação, embora um tanto apocalíptica, é compartilhada por muitos compatriotas. O primeiro-ministro polonês, Mateusz Morawiecki, escreveu no Financial Times na sexta-feira que a invasão da Ucrânia é outro capítulo da restauração do status imperial da Rússia e que Vladimir Putin ressuscita os “dias de dominação stalinista da União Soviética”.“Amanhã Letônia, Lituânia e Estônia, assim como a Polônia, podem ser os próximos da fila”, disse o premier.
O imperialismo do antigo vizinho deixou marcas profundas na Polônia. Ryszard Kapuscinski (1932-2007), um dos mais importantes escritores poloneses do século XX e que fez carreira como jornalista numa agência de notícias estatal dos tempos do comunismo, definiu a Rússia como um “imenso país habitado por um povo que, desde séculos, mantém uma ideia fixa: a ambição imperial”.
Nesse passado de agressões e dominações dos russos, que vem de séculos, a Polônia também tem episódios com o vizinho do Ocidente: a Alemanha de Hitler, que detonou a Segunda Guerra Mundial ao invadir o país em 1939.
No dia 24 de fevereiro, quando começou a invasão russa no território ucraniano, o efeito nos poloneses, com rememorações do passado, foi imediato. Houve corrida e filas para abastecer carros em cidades como Cracóvia, a maior da região Leste do país.
Dois dias depois, nos postos de Przemysl, cidade de 60 mil habitantes a 12 quilômetros da fronteira com a Ucrânia, a gasolina acabou antes do meio-dia – também por causa da procura dos ucranianos, que enfrentam escassez de combustíveis.
Passado traumático
Mais importante dos oito pontos de acolhidas dos refugiados na fronteira polonesa, o município já foi palco – em diferentes ocasiões – de eventos traumáticos da história da Polônia.
Na Primeira Guerra Mundial (1914-18), Przemysl sediou a batalha mais longa do conflito: 133 dias. Os russos venceram, mas pouco depois os alemães reconquistaram o território.
No início da Segunda Guerra (1939-45), quando a Polônia foi invadida pelos nazistas, houve por ali uma outra batalha importante. Dezessete dias após a invasão alemã, os russos invadiram a região Leste, e a Polônia passou então a ser um território compartilhado por nazistas e soviéticos. Os russos, contudo, se tornaram ainda mais indesejados por causa do regime comunista iniciado na Polônia com o fim da guerra e que só terminou em 1989.
“Cresci ouvindo minha vó falar mal dos russos, mas são duas as datas simbólicas, o 1º de setembro [invasão nazista] e o 17 de setembro [invasão soviética]”, disse em um ótimo português a polonesa Agata Madejowska, nascida na região e casada com um brasileiro.
Refugiados desiguais
Mais do que o passado, a guerra entre Rússia e Ucrânia diz muito também sobre o presente da Polônia. Em especial, no contraste do acolhimento dado agora aos ucranianos e aquele dispensado num passado recente aos imigrantes e refugiados de outras nacionalidades.
De acordo com o Alto Comissariado da ONU para os Refugiados, mais de 500 mil ucranianos já deixaram o país, e, segundo a guarda de fronteira polonesa, 327 mil entraram escapou pela Polônia. A estrutura montada pelo governo, ainda desorganizada, não consegue dar conta do fluxo contínuo.
“Estamos numa crise. São mais de 30 mil pessoas que cruzam a fronteira diariamente, cada vez são mais. Ainda esperamos por ajuda”, disse Oscar Bróz, que trabalha na estrutura armada pelo governo na estação ferroviária de Przemysl.
No fim de semana, centenas de voluntários como Madejowska e Arkuszewski se apresentaram espontaneamente na fronteira para auxiliar os recém-chegados em viagens pelo país e para a distribuição de água e comida, mas na segunda-feira o número de voluntários era bem menor, conforme observou Bróz. As informações são do jornal O Globo.
