A guerra do presidente dos EUA, Donald Trump, contra o Irã está causando estragos na economia do país. Há um custo de centenas de bilhões de dólares em perda de produção – à medida que a disparada de preços da gasolina, o aumento do custo de empréstimos e problemas nas cadeias de fornecimento minam a prosperidade dos cidadãos.
Enquanto estimativas iniciais do governo apontavam para um custo direto de US$ 25 bilhões para os americanos, economistas preveem um impacto muito maior quando se considerarem a conta militar total e os custos maiores de financiamento.
“Os custos orçamentários já anunciados são apenas a ponta do iceberg”, disse Linda Bilmes, professora de Harvard e especialista no custo dos conflitos dos EUA. “Isso pode não ser sentido de imediato – é possível fazer remendos por algum tempo. Mas a escala em termos financeiros é tal que não dá para acobertar para sempre.”
O conflito se dá em um momento em que a popularidade de Trump já está perto de seus menores níveis históricos, resultado que em parte é alimentado por uma crise do custo de vida que só faz piorar e deixou muitos americanos com dificuldades para pagar suas contas.
Na segunda-feira, na tentativa de conter os preços que podem pesar na eleição legislativa de novembro, Trump afirmou que vai suspender o imposto federal de US$ 0,18 sobre a gasolina e preparava uma medida para reduzir tarifas de importação de carne bovina.
“A guerra remodela a economia de maneiras realmente fundamentais, profundas e dispendiosas”, afirmou Justin Wolfers, professor da Universidade de Michigan. “Não estou dizendo que não vale a pena – essa é uma conclusão a que cada um chega com base no que considera que são os benefícios da guerra. Mas se você quer gasolina barata e mais mantimentos, este é o caminho errado.”
O Pentágono gastou uma quantidade enorme de mísseis e interceptores de defesa aérea dispendiosos, equivalentes a anos de aquisições, e argumenta que esse é o principal fator na sua estimativa de US$ 25 bilhões para o custo da guerra. Os gastos dos EUA na área da defesa já tinham disparado antes mesmo de a crise começar, com o anúncio de Trump de planos para elevar as despesas em cerca de 50%, para US$ 1,5 trilhão, entre o atual ano fiscal e 2027. E esses números não incluem os efeitos da guerra.
O Pentágono planeja fazer a Casa Branca submeter ao Congresso um pedido suplementar de verbas, mas o valor ainda não foi determinado.
O fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passava um quinto da oferta mundial de petróleo antes da guerra, elevou os preços da gasolina nos EUA em mais de 50%, para US$ 4,55 por galão (quase R$ 6 por litro) – o choque de combustível mais grave entre economias do G7.
O diesel – um insumo vital para a economia industrial americana – aumentou em margem semelhante e chegou a US$ 5,66 (R$ 7,32 por litro), pouco abaixo de seu recorde de US$ 5,82.
Até sexta-feira, os consumidores americanos tinham pago US$ 35 bilhões a mais com gasolina e diesel desde o início da guerra, segundo a Watson School of Public Affairs, da Brown University. Isso equivale a cerca de US$ 268 por família, ou a compras de supermercado para uma semana.
“O orçamento total anual da Nasa é de US$ 25 bilhões, então já passamos bastante disso”, disse Jeff Colgan, professor de ciência política da Brown University. “Isso deixa muito claro o que mais poderíamos ter feito com esse dinheiro se não o estivéssemos desperdiçando com gastos adicionais de combustível associados a uma guerra que a maioria dos americanos parece não querer em ‘primeiro lugar’.”
Um estudo publicado esta semana pelo Fed de Nova York (um dos braços do Federal Reserve, o banco central dos EUA) concluiu que, enquanto as famílias no terço superior da distribuição de renda mal reduziram o consumo de gasolina, as que estão no terço inferior consomem hoje 7% a menos, e recorrem a caronas e transporte público para lidar com o golpe econômico.
Mas a alta dos preços dos combustíveis representa um impacto líquido positivo para pelo menos um grupo: o dos produtores de petróleo dos EUA. O país está vendendo petróleo para outros países mais do que nunca, e os exportadores garantiram um recorde de US$ 214 bilhões em março.
“Os que se beneficiam são os donos dos poços de petróleo e gás nos EUA, que estão conseguindo preços mais altos – mas esses tendem a não ser pessoas pobres”, afirmou Joseph Gagnon, do Peterson Institute for International Economics. As informações são do jornal Financial Times.
