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Hipertensão é doença silenciosa e rastreio é falho no Brasil, afirmam especialistas

A hipertensão é a doença crônica não transmissível mais prevalente no Brasil e o principal fator de risco para infarto e AVC. (Foto: Reprodução)

A hipertensão é a doença crônica não transmissível mais prevalente no Brasil e o principal fator de risco para infarto e AVC (acidente vascular cerebral), segundo diretrizes nacionais e dados do Ministério da Saúde. Especialistas afirmam que os principais gargalos no enfrentamento da doença são as falhas no rastreamento e no diagnóstico precoce e a baixa adesão ao tratamento.

O Ministério da Saúde afirma que os atendimentos ambulatoriais relacionados à hipertensão no SUS quase triplicaram entre 2022 e 2025, passando de 916,7 mil para 2,6 milhões. A pasta estima que cerca de 30% da população brasileira tenha a doença.

Quando não controlada, a hipertensão pode aumentar os riscos de infarto, insuficiência cardíaca, AVC e comprometimento dos rins, que, em casos graves, pode levar à necessidade de diálise. Além disso, afeta os vasos sanguíneos, acelera a aterosclerose (acúmulo de gordura nas artérias) e eleva o risco de aneurismas.

O diretor da Unidade de Hipertensão Arterial do Incor do Hospital das Clínicas da FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), Luiz Bortolotto, estima que 90% dos pacientes não apresentam sintomas e podem conviver com a doença por anos sem diagnóstico ou acompanhamento médico.

Para o especialista, é fundamental que a pressão seja aferida de forma rotineira em qualquer consulta na atenção básica, independentemente da queixa do paciente. A SBC (Sociedade Brasileira de Cardiologia) faz a mesma recomendação ao ressaltar a necessidade de busca ativa de pacientes.

Para João Vicente da Silveira, cardiologista da Sociedade Brasileira de Hipertensão, como a maioria dos pacientes não apresenta sintomas, a doença é conhecida como “assassino silencioso”.

“O grande problema é que as pessoas não sentem nada. Não procuram o médico e não aferem a pressão. Ficam anos com a pressão elevada sem saber”, diz.

Para Bortolotto, outro problema para o controle da hipertensão na atenção básica é a chamada inércia terapêutica, quando a medicação disponível não é utilizada ou combinada da forma mais adequada pelos médicos.

A Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial de 2025, da SBC, aponta que cerca de 75% dos pacientes hipertensos no Brasil são tratados no SUS, que oferece as principais classes de anti-hipertensivos.

“Dá para tratar a grande maioria dos pacientes com o que há disponível na rede pública. Mas é preciso combinar corretamente”, diz Bortolotto.

De acordo com o especialista, a maior parte dos hipertensos pode ser acompanhada em uma UBS (Unidade Básica de Saúde), porta de entrada no SUS. Ele estima que apenas de 10% a 15% necessitem de atendimento em serviços de maior complexidade.

Uma limitação importante citada pelos especialistas é que os programas de distribuição do Ministério da Saúde não dispõem de combinações em um único comprimido para tratar a hipertensão. A necessidade de tomar vários medicamentos por dia atrapalha a adesão, levando parte dos pacientes a abandonar o tratamento ou a segui-lo de forma inadequada, aponta Silveira.

A diretriz brasileira aponta que cerca de 50% dos pacientes com doenças crônicas no país não tomam os medicamentos conforme o prescrito, o que contribui para aumento de hospitalizações e mortalidade.

Mais de 40 entidades médicas da América Latina defendem que a não adesão ao tratamento de doenças crônicas como hipertensão e diabetes seja reconhecida como fator de risco modificável para infarto e AVC.

Entre as propostas defendidas pelos especialistas para melhorar a adesão ao tratamento da hipertensão está a incorporação, no SUS, de combinações de dois ou três medicamentos em um único comprimido, estratégia já disponível na rede privada por um custo de cerca de R$ 150 ao mês.

Para a SBC, a combinação fixa simplifica a rotina, aumenta a persistência no tratamento, permite controle mais precoce do quadro e reduz inércia terapêutica, hospitalizações e risco de morte, além de estar associada a menos efeitos adversos do que o uso isolado de doses mais altas.

Os efeitos colaterais das medicações anti-hipertensivas também são apontados como causa frequente de abandono do tratamento e um dos principais desafios para a adesão, segundo a SBC. Mulheres na menopausa e idosos relatam com ainda maior frequência sintomas como tontura e queda de pressão ao levantar.

Silveira diz que o custo do medicamento combinado é uma das justificativas dos órgãos públicos para a não inclusão no SUS. Ele afirma, contudo, que estudos de custo-efetividade mostram redução casos de infarto, AVC, insuficiência cardíaca e internações em UTI. “O benefício supera o custo”, argumenta.

Procurado, o Ministério da Saúde diz que a Conitec (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde) avaliou em 2023 a incorporação da combinação entre os medicamentos benazepril e anlodipino para hipertensão, com parecer desfavorável.

A pasta afirma que, entre os critérios avaliados para a decisão à época, foi considerada a ausência de evidências a respeito de uma maior adesão ao tratamento pelos pacientes.

Além dos múltiplos medicamentos, pacientes com hipertensão refratária podem ser encaminhados para a denervação renal, como no caso da cabeleireira Silvia Martins. Segundo Silveira, o procedimento é feito com a introdução de um cateter pela artéria da virilha até os vasos que irrigam os rins. Ali são aplicadas pequenas descargas de radiofrequência para reduzir a atividade dos nervos que atuam no controle da pressão. Com a redução desse estímulo, os níveis tendem a cair.

A denervação renal, porém, não está disponível no SUS. O Ministério da Saúde afirma que não há pedido na Conitec para análise de incorporação do procedimento. As informações são do jornal Folha de S.Paulo.

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