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Homens que entraram no site de traições amorosas provavelmente falaram com um robô pensando que estavam falando com uma mulher

Rede social Ashley Madison, que promove casos extraconjugais, estabelece relações mais impessoais do que muitos usuários esperam. Crédito: Reprodução

Em julho e agosto, 33 milhões de usuários do site de traição amorosa Ashley Madison tiveram seus dados expostos por hackers. Mas um dos frequentadores assíduos da página passou incólume, por enquanto – sua mulher, que tem 60 anos, não é muito ligada em tecnologia, conta o filho do casal. Após o vazamento, sites disponibilizaram os dados para que parceiros e parceiras averiguassem se tinham sido traídos. A busca pode ser feita por e-mail, apelido ou telefone. “Tive a conta no período em que estava solteiro”, garante um homem de 31 anos cuja foto no Facebook é com a namorada. Ela não sabe da conta – “ninguém sabe”, aponta. Ele teme ter dados bancários divulgados e, claro, “outros transtornos”.

As revelações derrubaram o presidente-executivo da empresa que controlava a Ashley Madison e provocaram até suicídio: investigadores do Canadá acreditam que duas mortes em agosto podem ter ligação com o caso.

Mesmo que São Paulo seja a cidade com o maior número de cadastrados no mundo (374 mil), há indícios de que o impacto do vazamento não foi tão grande na cidade e no resto do Brasil.

Brasileiros não pagam.
Para Ronaldo Lemos, especialista em cultura digital, os sites que revelam infiéis e a própria notícia do caso não foram muito divulgados no Brasil. Outra hipótese é de que há muitos usuários inativos no País – gente que percebe que é necessário pagar para enviar mensagens e desiste de frequentar a rede social.

Um homem solteiro de 25 anos revelou ter se cadastrado em busca de sexo casual. “Logo que vi que era tudo pago, inclusive para mandar mensagens. Já desanimei”. “A maioria dos brasileiros não paga”, afirma Lemos. “Tem muita gente que tem internet, mas não tem cartão de crédito internacional. E a renda, aqui, é muito menor.”

Apesar de ser um site para traição – com o slogan “A vida é curta. Curta um caso” –, é falsa a imagem de que todos os usuários eram casados, avalia a psicoterapeuta Maria Irene Zerbini, que estuda a infidelidade virtual. E os comprometidos eram atraídos pela propaganda que “alimenta a fantasia de que é possível manter um relacionamento seguro e estável e ao mesmo tempo ter a excitação de uma paixão”.

Sem “calor humano”.
O vazamento dos dados trouxe outras revelações. Homens cadastrados na rede social poderiam, muitas vezes, estar conversando com robôs – agentes virtuais que simulam ações humanas de forma padronizada –, e não com mulheres de verdade. Segundo a jornalista americana Annalee Newitz, do site de tecnologia Gizmodo, pelo menos 70 mil robôs foram criados para manter conversas com usuários do site.

Um homem de 53 anos diz que logo percebeu que as datas das mensagens enviadas por mulheres não batiam com os últimos acessos delas. “Só caía nessa arapuca quem estivesse muito a fim de acreditar”, observa.

Processo.
Em 2012, robôs fizeram uma ex-funcionária do Ashley Madison processar a empresa. Doriana Silva, brasileira que vivia em Toronto (Canadá), alegou ter sofrido LER (lesão por esforço repetitivo) ao ser obrigada a digitar mil perfis falsos em um mês. A empresa retrucou com outro processo, acusando Silva de roubar documentos confidenciais. A reportagem não localizou Doriana. Seu advogado, Paul Dollak, recusou-se a dar informações sobre a cliente, mas enviou uma nota. “É difícil ser solidário ao site. Mas é possível lamentar por seus membros”, diz. “Parece que Ashley Madison foi pega no ato.” (Folhapress)

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