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Homo Deus: afinal, que raios é isso?

Autor sugere que o homo sapiens, espécie que dominou o planeta, caminha para se tornar algo além de humano, quase divino. (Foto: Imagem gerada por IA)

Já escrevi em outras ocasiões sobre os avanços tecnológicos e sobre o ponto de inflexão que a humanidade vive neste momento. É como se estivéssemos diante de uma curva histórica decisiva: de um lado, o acúmulo de séculos de ciência e invenção; do outro, a promessa — e o risco — de um futuro em que a tecnologia redefine não apenas o modo como vivemos, mas o que significa ser humano.

Foi nesse contexto que me deparei com o conceito de Homo Deus, popularizado pelo historiador israelense Yuval Noah Harari em seu livro Homo Deus: Uma Breve História do Amanhã. O título já é uma provocação: sugere que o Homo sapiens, espécie que dominou o planeta, caminha para se tornar algo além de humano, quase divino.

Mas o que significa, afinal, esse “Homo Deus”? Harari descreve uma humanidade que, ao dominar a biotecnologia, a inteligência artificial e a engenharia genética, passa a ter poderes antes atribuídos apenas aos deuses: criar vida, prolongar a existência, manipular emoções e até redesenhar a própria natureza. Não é ficção científica; é uma projeção baseada em tendências que já estão em curso. Basta observar os avanços em medicina personalizada, em algoritmos que decidem por nós e em projetos de energia limpa que prometem revolucionar a forma como produzimos e consumimos.

Em janeiro de 2026, publiquei no jornal O Sul a coluna intitulada “Este tal de algoritmo”, disponível no site do jornal. Nesse artigo, mencionei o termo tecexistencialismo para refletir sobre como a tecnologia se entrelaça com nossa própria existência. Ali discuti também o papel dos algoritmos, que hoje não apenas organizam informações, mas moldam escolhas, comportamentos e até percepções de realidade. Essa ideia me parece central: não estamos apenas criando ferramentas, estamos moldando o tecido da vida.

O Homo Deus não é um ser distante, é uma metáfora para o que já começamos a nos tornar. E, como bem lembrava uma publicação que vi no Instagram sobre o tema, trata-se de uma transição inevitável. A tecnologia não é um acidente da história; é parte da natureza humana. Desde a invenção da roda até os chips quânticos, sempre buscamos superar limites.

A questão que se impõe, então, é: onde isso vai parar? Se alguém tiver essa resposta definitiva, eu gostaria muito de ouvi-la. Mas talvez a pergunta seja menos sobre o destino final e mais sobre o caminho que escolhemos trilhar. Porque os avanços tecnológicos não são neutros; eles carregam valores, intenções e consequências.

Se direcionados para garantir energia limpa, carros sem combustível fóssil, sistemas de saúde mais eficientes e acessíveis, estaremos dando passos concretos para assegurar que as futuras gerações tenham um planeta para chamar de seu. Se, ao contrário, forem usados apenas para ampliar desigualdades ou explorar recursos de forma predatória, o Homo Deus pode se tornar um mito sombrio.

É curioso pensar que, ao mesmo tempo em que falamos de inteligência artificial e biotecnologia, ainda convivemos com problemas básicos como fome, guerras e crises ambientais. O Homo Deus, nesse sentido, é um alerta: não basta ter poder, é preciso saber usá-lo. A divindade que Harari sugere não é literal, mas simbólica. Somos deuses na medida em que podemos decidir o destino da vida na Terra. E essa responsabilidade é imensa.

Eu, pessoalmente, acredito que os avanços tecnológicos são inevitáveis e até desejáveis. Eles são expressão da nossa curiosidade e da nossa capacidade de criar. Mas inevitabilidade não significa fatalismo. Temos escolhas a fazer. Podemos optar por tecnologias que ampliem a sustentabilidade, que reduzam impactos ambientais, que promovam justiça social. Podemos, enfim, usar o poder do Homo Deus para garantir que o amanhã seja não apenas mais avançado, mas também mais humano.

O título deste artigo, que ajustei para “Homo Deus: afinal, que raios é isso?”, reflete bem a perplexidade que muitos sentem diante dessas transformações. É um misto de fascínio e temor. E talvez seja esse o ponto: reconhecer que estamos diante de algo grandioso, mas que exige reflexão crítica. O Homo Deus não é um destino escrito nas estrelas; é uma construção coletiva. E cabe a nós decidir se será uma história de esperança ou de advertência.

* Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética – rena.zimm@gmail.com

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