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Incerteza fiscal e disparada do dólar depois da vitória de Lula nas urnas levam analistas a apostar na manutenção da taxa Selic nesta semana

O mercado financeiro migrou em peso para a aposta na manutenção da Taxa Selic nesta semana. (Foto: Marcello Casal Jr./ABr)

O mercado financeiro migrou em peso para a aposta na manutenção da Taxa Selic nesta semana após a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL) na disputa do comando do Palácio do Planalto a partir de 2027. Antes, havia uma expectativa majoritária de um corte adicional de 0,25 ponto percentual no Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) que se encerra nesta quarta-feira (4) graças aos sinais de desaceleração da atividade econômica.

O movimento que se sucedeu ao pleito é justificado pelos agentes em razão do aumento do risco fiscal e da disparada do dólar, que acumulou alta de 9% na semana passada, com efeitos diretos na inflação que o BC quer combater. A moeda terminou a semana em R$ 5,44.

Parte da depreciação cambial brasileira é resultado de um reposicionamento do mercado após a vitória de Lula, uma vez que era majoritária a expectativa de que Flávio vencesse nas urnas. De outro lado, a alta do dólar reflete a baixa expectativa de um ajuste fiscal robusto em um novo governo petista.

O IPCA, índice inflacionário oficial, também está acima da meta, em 4,58% em 12 meses até setembro. A autoridade monetária conduz os juros básicos para colocar a inflação na meta de 3,0% dentro do horizonte relevante, que nesta reunião será o segundo trimestre de 2028. A consultoria regra é considerada cumprida se ficar entre 1,5% e 4,5%. Atualmente, a Selic está em 13,75% depois de cinco cortes de 0,25 ponto percentual desde março deste ano.

– Guerra no Irã e efeitos do El Niño: Como tem sido de costume, na última reunião, em setembro, o BC não deu nenhuma sinalização direta sobre os seus planos para o ciclo de juros. Diante das incertezas, como a guerra no Irã, o El Niño, e o futuro da política econômica, da desancoragem das expectativas inflacionárias e dos riscos elevados, o Copom tem pregado cautela e serenidade e esperado a evolução dos dados até o encontro para definir os rumos da Selic. O único compromisso tem sido manter a Selic em nível que restringe à economia para alcançar a meta de 3%.

“O Comitê seguirá acompanhando a evolução do cenário de forma a manter a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta”, disse em setembro.

Na época, porém, a maioria dos economistas avaliava que o BC preferia continuar cortando os juros. Na última sexta-feira, por sua vez, as opções digitais de Copom, derivativos padronizados negociados na B3 que permitem ao mercado financeiro especular ou se proteger em relação à definição da Selic, fecharam com 72% de precificação para manutenção dos juros e 26% para corte de 0,25 ponto percentual, segundo o economista-chefe da Quantitas Asset, Ivo Chermont.

Chermont foi um dos economistas que mudaram a expectativa para este Copom de queda para 13,5% para manutenção em 13,75% após as eleições. O economista destaca que a alteração se deve ao aumento do dólar e à esperada piora das expectativas de inflação no Boletim Focus que será divulgado nesta segunda-feira.

As projeções na pesquisa já estavam distantes da meta e devem ficar mais desancoradas considerando as revisões de cenário realizadas pelos participantes após as eleições. Na última divulgação, com as expectativas realizadas antes da definição do pleito, as medianas eram de 5,19% para o final de 2026, 4,34% para o término de 2027 e 3,75% para fim de 2028.

– Dólar mais alto no fim do ano: A consultoria Buysidebrazil agora vê um cenário mais negativo para a inflação brasileira. Elevou a projeção para o IPCA em 2027 de 3,9% para 4,7% devido às pressões adicionadas pelo câmbio mais desvalorizado. Para o dólar, a previsão mudou de R$ 4,90 para R$ 5,40 no final de 2026 e 2027.

“A combinação de uma pressão inflacionária adicional e de um risco maior das expectativas inflacionárias se tornarem desancoradas deve levar o Copom a interromper o ciclo de flexibilização monetária. Embora a atividade econômica continue a mostrar sinais de desaceleração, nós acreditamos que esses efeitos inflacionários são insuficientes para compensar a deterioração no balanço de riscos”, diz, em relatório.

O economista-chefe do Banco Pine, Cristiano Oliveira, cita, além da incerteza sobre os rumos da política fiscal no governo reeleito, uma incorporação tardia do mercado dos potenciais efeitos do fenômeno El Niño sobre a inflação de 2027 para justificar a pausa no corte da Selic nesta reunião.

Já o Itaú Unibanco agrega ainda que o cenário externo se tornou ainda mais adverso desde o último encontro do Copom, em setembro. Isso se deve, segundo ao banco, ao aperto das condições financeiras em economias desenvolvidas, que estão em um ciclo de alta de juros, e à nova rodada de alta das cotações do petróleo em meio ao conflito no Oriente Médio.

Utilizando as expectativas de inflação e a trajetória da Selic extraídas da pesquisa Focus da semana passada, o Itaú espera que a projeção oficial do BC para o segundo trimestre de 2028 (horizonte relevante) suba para 3,4%, de 3,1% antes. O banco pondera, contudo, que as expectativas de inflação e para Selic devem subir na Focus.

“Em meio a um contexto mais adverso, com possível movimento relevante de desancoragem adicional das expectativas de inflação e uma maior assimetria no balanço de riscos em torno do cenário base, esperamos que o comitê comunique a escolha unânime de interromper o ciclo de queda dos juros”, disse o Itaú em relatório.

Já Cristiano Oliveira, do Pine, avalia que a manutenção da Selic em novembro não significa o encerramento do ciclo de redução dos juros.

“Os próximos passos dependerão da evolução das expectativas de inflação, da atividade econômica e dos demais fatores que influenciam as projeções do Banco Central”. (Agência Globo)

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