Por muito tempo, difundiu-se a ideia de que a indústria perderia relevância à medida que os países ficassem mais ricos. A chamada “desindustrialização natural” passou a ser tratada quase como destino inevitável. Mas um estudo recente publicado na revista Industrial and Corporate Change, de autoria de Antônio Carlos Diegues, Qiuyi Yang, José Eduardo Roselino, Marcos José Barbieri Ferreira e Renato Garcia, desmonta esse argumento com dados e evidências sólidas: a indústria segue sendo fundamental para o desenvolvimento, inclusive em países de renda média e alta.
Os autores analisaram o período de 2000 a 2019 e mostraram que não há um “U invertido” entre renda per capita e contribuição da indústria para o desenvolvimento. Ou seja, a indústria não perde automaticamente importância quando o país enriquece. Ao contrário: em economias de renda média, como o Brasil, o aumento da renda está associado a uma contribuição crescente da manufatura, tanto para a produtividade quanto para os salários.
Essa constatação é especialmente relevante para o debate brasileiro. Nas últimas décadas, o país assistiu a um processo claro de desindustrialização precoce. A participação da indústria de transformação no PIB caiu, a complexidade produtiva se enfraqueceu e o país passou a depender cada vez mais da exportação de commodities. O resultado que todos conhecemos trouxe crescimento baixo, empregos mais frágeis e menor capacidade de inovação.
O estudo de Diegues e coautores reforça que não existe desenvolvimento sustentável sem uma base industrial forte. É na indústria que se concentram os maiores ganhos de produtividade, os salários mais elevados e a capacidade de difundir tecnologia para o restante da economia. Setores industriais puxam cadeias produtivas inteiras, do transporte à pesquisa, da engenharia aos serviços especializados.
No caso dos países de alta renda, o artigo mostra algo ainda que mesmo nessas economias, não há evidência de que a produtividade industrial entre em declínio “natural”. O que ocorre é uma pressão internacional por custos mais baixos, especialmente via cadeias globais de valor. Ainda assim, os setores tecnologicamente intensivos continuam sendo estratégicos. Em outras palavras: a indústria muda de forma, mas não perde relevância.
Para o Brasil, o problema não é “ter indústria demais”, mas ter indústria de menos, e, sobretudo, uma indústria pouco sofisticada. Sem manufatura forte, o país fica preso a ciclos de exportação primária, vulnerável a choques externos e com pouca capacidade de gerar empregos qualificados em escala.
É por isso que o debate sobre política industrial voltou ao centro do palco no mundo todo, dos Estados Unidos à União Europeia, da China à Índia. O artigo mostra que não se trata de nostalgia desenvolvimentista, mas de estratégia econômica racional. Políticas industriais bem desenhadas, articuladas com inovação, digitalização e transição verde, são hoje condição para competir.
No Brasil, isso significa apoiar setores com maior intensidade tecnológica, fortalecer a engenharia nacional, investir em ciência aplicada e usar o poder de compra do Estado de forma inteligente. Significa também olhar para a indústria não como problema ambiental, mas como parte da solução: é nela que se produzem os equipamentos da transição energética, da mobilidade elétrica e da economia digital. A atual revolução da Inteligência Artificial, por exemplo, antes vista apenas como desenvolvimento de softwares, hoje implica a jusante uma infinidade de projetos que estão demandando uma oferta muito grande de energia e outras matérias.
A mensagem dos autores não poderia ser mais clara aos governantes e estrategistas que têm a missão de pensar o Brasil para as próximas décadas: a indústria continua sendo um pilar do desenvolvimento. Para o Brasil, ignorar isso é aceitar um futuro de crescimento baixo, empregos frágeis e dependência externa. Recolocar a manufatura no centro da estratégia nacional não é saudosismo, é pragmatismo econômico.
(Instagram: @edsonbundchen)
