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Inferno astral: Trump celebra 80 anos com imagem desgastada e preso em guerra sem fim

Ele citou "capacidade de produção limitada, cadeias de suprimentos frágeis, dependências de longo prazo e gargalos de produção relacionados". (Foto: Daniel Torok/The White House)

Quatro dias antes de completar 80 anos, o presidente dos EUA, Donald Trump, revelou a jornalistas o que gostaria de ganhar de aniversário, celebrado nesse domingo (14): “Paz para todo o mundo”. Uma fala panglossiana que não esconde seu inferno astral. Ele ostenta índices históricos de desaprovação, tem uma lista cada vez menor de aliados, e segue distante de uma saída para a guerra que criou no Irã. Nem seus planos hiperbólicos para o apagar das velinhas (dele e do país) passaram ilesos: as obras em Washington estão na mira da Justiça, a série de shows prevista para as próximas semanas foi cancelada e o evento do UFC na Casa Branca deu margem a comparações inglórias.

“Não é que o Trump mudou do primeiro para o segundo mandato, o que mudou foi o entorno dele. Ele está mais cercado de indivíduos cujo principal objetivo é prestar lealdade a Trump, pessoas cuja função é apenas dizer ‘sim, senhor’”, disse Carlos Gustavo Poggio, professor do Departamento de Ciência Política do Berea College, ao jornal O Globo. “Isso tornou esse estilo caótico de tomar decisões por impulso mais evidente. Se no primeiro mandato ele falava algo absurdo, era, de alguma forma, sabotado em seu entorno.”

Desde janeiro de 2025, quando retornou à Casa Branca, Trump acumulou poderes, com o aval do Congresso afável e de um Departamento de Justiça disposto a fazer cumprir a agenda de perseguição de rivais, especialmente democratas. Analistas afirmaram que essa era uma “Presidência imperial”, e o republicano falou em tom de seriedade sobre um terceiro mandato, proibido pela Constituição.

Aliados externos se viram perdidos diante de críticas nada diplomáticas ou, no caso do líder ucraniano, Volodymyr Zelensky, humilhações. O tarifaço global, que confundiu retaliações comerciais com punições políticas, minou a credibilidade dos EUA, e a retomada do papel de “xerife do mundo”, especialmente na América Latina e Oriente Médio, não lhe rendeu novos amigos. Mas na novilíngua trumpista, era o caminho da “Era Dourada” dos EUA.

Fora do núcleo duro do trumpismo, as coisas não são tão douradas após 510 dias de mandato. Suas taxas de aprovação estão perto das mínimas históricas — na última terça-feira, uma pesquisa da Reuters/Ipsos lhe deu apenas 35% —, e até seus eleitores em 2024 se mostram descontentes. O governo não apresentou medidas concretas para o custo de vida, e agravou o cenário ao provocar um dos maiores choques no setor de energia da História com a guerra contra o Irã. Segundo a Associação Automobilística Americana, encher o tanque ficou, em média, 39,2% mais caro desde 28 de fevereiro.

As variações de humor, decisões intempestivas, sintomas como as manchas nas mãos e as constantes visitas ao médico levantam questões sobre a aptidão para o cargo. Em abril, 51% dos entrevistados disseram à Reuters/Ipsos que as capacidades cognitivas do presidente se deterioraram no último ano, e só 26% o veem como uma pessoa equilibrada. Na última semana, uma deputada democrata classificou os cochilos de Trump em reuniões ministeriais de “risco à segurança nacional”.

A cinco meses das eleições de novembro, quando a Câmara e um terço do Senado serão renovados, esse é um cenário nada animador para o Partido Republicano. As projeções mostram que há chances consideráveis dos democratas assumirem o controle de ao menos uma das Casas, tornando os dois anos finais de Trump um potencial calvário — ou, no jargão político, um presidente “pato manco”, sem muito poder de fato para governar.

Publicamente, ele não parece incomodado. Em maio, ao ser questionado se tinha pressa para chegar a um acordo com o Irã, pensando nas urnas, disse que “não liga para as eleições de meio de mandato”. Na quarta-feira, em tom jocoso, afirmou que “ama a inflação” após divulgação de uma nova alta na taxa medida pelo governo. E a retomada dos bombardeios, na terça, revelou um presidente frustrado com uma guerra que não tomou os rumos que gostaria, e da qual não sabe como sair.

“Além da frustração, há o componente da pressão: ele percebeu que o relógio correu contra ele em uma guerra que os americanos não queriam, que causou impactos econômicos severos”, afirmou ao jornal O Globo Paulo Velasco, professor de Relações Internacionais da Uerj. “Sob pressão, ele pode tomar decisões mais radicais, e ele precisa dar uma resposta e sair da maneira mais honrosa da guerra.”

Mesmo com a ojeriza da maioria dos americanos ao governo e à guerra no Golfo — 63% reprovam a forma como conduz o conflito, apontou o YouGov na terça-feira — Trump não perdeu as rédeas do Partido Republicano. Em sua campanha de vendetas pessoais, priorizou candidatos leais e escanteou veteranos que não rezam por sua cartilha. No Texas, Ken Paxton, o polêmico procurador apoiado pelo presidente, venceu as primárias para a disputa a uma vaga no Senado, derrotando o veterano John Cornyn. Thomas Massie, que votou pela liberação dos arquivos de Jeffrey Epstein, foi derrotado por um trumpista nas primárias para uma vaga na Câmara pelo Kentucky.

“É uma situação muito sui generis: um presidente que é muito popular dentro de seu partido, que usa isso para selecionar seus candidatos, mas cuja impopularidade no país tende a causar problemas para eles nas eleições”, destaca Poggio. “E o caso do Texas (um estado de maioria republicana) pode ser o mais simbólico. Se os democratas levarem, seria muito relevante e ilustraria o problema dessa estratégia.”

Já nesse domingo, Donald Trump anunciou um acordo com o Irã para encerrar o conflito lançado por ele no final de fevereiro, depois de um dia marcado por ataques de Israel contra o Líbano e ameaças de retaliação. O republicano confirmou a reabertura do Estreito de Ormuz, o fim do bloqueio naval aos portos do Irã e a suspensão das hostilidades em todas as frentes, inclusive no Líbano. A assinatura do memorando será na sexta-feira, dando início a uma nova e potencialmente complexa nova fase de negociações de 60 dias. As informações são do jornal O Globo.

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