A companhia americana CrowdStrike, uma das maiores empresas de cibersegurança do mundo, tem mantido um olhar próximo sobre as atividades do cibercrime no Brasil. Afinal, os últimos levantamentos do setor indicam que o País é o terceiro mais visado por cibercriminosos no mundo, além de celeiro de novos ataques e modus operandi, seja por particularidades sociais ou sistemas únicos, como o Pix.
O Slim Spider, grupo cibercriminoso brasileiro que surgiu recentemente, utiliza inteligência artificial (IA) para automatizar ações e elevar o nível técnico de intrusões. Só o nascimento de um grupo não seria notícia – eles nascem aos montes –, mas a nova quadrilha abre um padrão perigoso para o Brasil, diz Jeferson Propheta, vice-presidente da CrowdStrike para a América do Sul.
Em março deste ano, os pesquisadores da empresa notaram uma ação especializada que fugia do padrão. O Slim Spider conduziu uma intrusão em múltiplas etapas em uma instituição financeira mirando ativos de criptomoedas e contas de pagamento instantâneo da organização. A instituição não foi revelada.
A quadrilha também invadiu a infraestrutura em nuvem de “diversos serviços e provedoras”. Para roubar credenciais de nuvem, desenvolveu ferramentas que consultavam o serviço de credenciais de acesso temporárias. O ataque visava à extração de chaves de custódia de criptoativos e à movimentação direta de valores por meio de contas de pagamento instantâneo. Ele envolveu scripts automatizados para filtrar caixas de e-mail identificando termos em português como “finanças”, “admin” e “Brasil”, com objetivo de acelerar a localização de credenciais administrativas e dados de alto valor.
A ação também envolveu o uso de um malware, batizado de “spi” pelo Slim Spider em referência ao Sistema de Pagamentos Instantâneos do Banco Central, o motor do Pix. O malware era embutido como arquivo legítimo do sistema para não chamar a atenção – a partir da infecção, o grupo conseguiu invadir o Azure DevOps (plataforma da Microsoft onde as equipes de TI armazenam códigos e criam regras) e rodar rotinas automáticas maliciosas para espalhar o vírus pelo sistema de servidores da empresa.
O relatório Threat Hunting 2026 da CrowdStrike, recebido com exclusividade pelo TecMundo, crava que há uma mudança histórica em curso no cibercrime brasileiro. Historicamente conhecido por golpes fáceis e rápidos, além da utilização de malwares bancários – em sua maioria, trojans (cavalos de troia) alugados –, o cenário agora também abriga operações sofisticadas que envolvem invasões em nuvem, automações via IA e até exploração direta da infraestrutura do Pix.
Para classificar os muitos tipos específicos de crimes digitais, a CrowdStrike costuma batizar agentes criminosos ou hackativistas com nomes de animais. No Brasil, é muito presente a família Spider (aranha). Por aqui, até o momento, o grande grupo era chamado de “Plump Spider”. “Monitoramos o Plump Spider desde novembro de 2023. O Slim Spider é dissidente – ou coirmão – desse grupo originário. Só classificamos agora porque as operações se diferem: ferramental especializado, conhecimento especializado. Não é tiroteio para todo lado”, diz Propheta.
Segundo o executivo, a IA tem potencializado o cibercrime, “levando-o a um nível próximo do que víamos no estatal”. Ele se refere ao cibercrime estatal, que engloba grupos com suposto financiamento de governos. “O estatal estava no topo da pirâmide porque tem dinheiro, tempo e não precisa gerar receita no curto prazo. O cibercrime sempre teve volume e objetivo financeiro. O hacktivista, menor qualidade técnica. A IA está polindo esse cara.”
Segundo Propheta, a IA quebrou as barreiras do idioma entre criminosos, que agora conseguem acessar, por exemplo, fóruns russos de hacking de modo mais rápido e fácil. “(A IA) Popularizou o acesso a ferramentas de alto valor e a informação global, combinado com conhecimento local de empresas, infraestrutura, extorsão, corrupção e insiders. Virou a tempestade perfeita.” As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
