Ícone do site Jornal O Sul

Jornalista americana recebeu um e-mail em que o seu pai contava que havia mudado de sexo e de nome

Susan e o pai, Steven Faludi (D), que se transformou, aos 76 anos, em Stéfanie, ou melhor, Stéfi, como gostava de ser chamado. História está registrada no livro “No Quarto Escuro”, na tradução livre. (Crédito: Reprodução)

“Querida Susan, tenho novidades interessantes para você”, começava Steven, o pai de Susan Faludi, em um e-mail enviado em 7 de abril de 2004 e intitulado “Mudanças”. “Decidi que já basta de incorporar o macho agressivo que nunca fui por dentro”, continuava, e para ilustrar, anexou uma foto sob a legenda “pareço cansada depois da cirurgia”. Estava de camisa sem manga e saia vermelha, em um hospital tailandês. Aos 76, o homem com quem Susan, 57, mal falara nos últimos 25 anos, dizia que seu nome passara naquele momento a ser Stéfanie.

Vencedora de um Pulitzer, com obras feministas no currículo, a jornalista nova-iorquina confessa hoje que, em um primeiro momento, titubeou. “Posso administrar uma mudança no pronome, pensei, mas na paternidade?” Meses depois, Susan foi à Hungria, onde Stéfanie morava, com um gravador, 24 fitas e dez páginas “sem duplo espaçamento” com perguntas. O pai transexual queria que ela escrevesse sua história, contada agora, 12 anos depois, no livro “In the Darkroom” (“No Quarto Escuro”, na tradução livre).

Identidade múltipla.

Susan cresceu vendo o pai como protótipo do macho americano. Steven lhe dava medo. Adolescente, percebia sua chegada em um cômodo mexer com a atmosfera, como “o termômetro que cai quando uma frente fria se avizinha”. A escritora narra o dia em que o pai, após se divorciar de sua mãe, violou uma ordem de restrição e, com um taco de beisebol, atacou o novo namorado dela. A sala, contou, parecia uma cena de “Carrie – A Estranha”, que estreara naquele outono de 1976.

No encontro na Hungria, Stéfanie a recepcionou com um suéter vermelho e brincos de pérola, o cabelo pintado de ruivo. “Seus seios 48C [uma das maiores medidas americanas de sutiã] cutucaram nos meus”, lembra.

Em alguns momentos a feminista se sentiu desconfortável com a situação, como quando Stéfanie lhe mostrou o vídeo da operação de mudança de sexo. A filha logo pensou no programa de culinária da lendária Julia Child (“corte o peixe pela lateral, guarde a pele para depois”). “Ao menos Julia estaria armada com um drinque forte”, pensava.
Para a jornalista, Stéfanie desafiou não só visões tradicionais sobre masculino e feminino, mas conceitos mais contemporâneos sobre gênero. Seria limitado defini-la como uma mulher por décadas presa no corpo de um homem, percebeu.

Para sobreviver ao Holocausto, o judeu Steven Friedman, filho da classe média alta de Budapeste, chegou a comer partes de um cavalo congelado no inverno. Depois da Segunda Guerra, mudou de assinatura (do judeu Friedman para Faludi, “um autêntico nome húngaro”) e de país. Morou na Dinamarca e no Brasil. Comprou uma câmera de um ex-nazista e documentou uma hidrelétrica na Bahia, onde aprendeu um ditado em português: “O urubu pousou na minha sorte”.

Reinventou-se mais uma vez como pai de duas crianças no subúrbio do Estado de Nova York (EUA). Fazia questão que a família comemorasse Natal e Páscoa e era fanático por Leni Riefenstahl, a cineasta predileta de Hitler. Essa teia de identidades teria dado um nó na cabeça de Susan. Qual delas seria a mais verdadeira? O patriarca violento, ou talvez o aspirante a cineasta? O jovem judeu que simulou ser fascista para salvar os pais da câmara de gás e que depois confessou à filha que “se você acredita ser quem finge ser, está a meio caminho da salvação?”.

Saudade de uma figura controversa, mas amada.

E agora a filha se via diante do seu novo pai, “este homem-judeu-transformado-em-mulher zombando de homens judeus por não serem masculinos o suficiente”. Stéfanie imitava a voz de Minnie Mouse para caçoar de conterrâneos que não enfrentavam as autoridades. “Se este livro tem uma ideia central”, defende a autora, “é a de que a identidade é fluida e múltipla”. Stéfanie morreu em 2015, aos 87 anos. “Sinto falta do meu pai e a chamo pelo que nome que ela mais amou: Stéfi. Sinto falta dela.” (Folhapress)

Sair da versão mobile