Corria o ano de 1964, lá pelo mês de outubro. Nós morávamos então em Ijuí – RS, na época ainda pequena cidade do interior do Brasil, muito progressista, habitada por um povo operoso e trabalhador, tanto que era conhecida como a “Colmeia do Trabalho”. Alguns anos antes, a sociedade local, através da Associação Comercial, do Rotary Club e do Lions Club, das Igrejas nos seus diversos credos (Católica, Evangélica Luterana, Adventista, Batista etc.), mobilizou a sociedade, o comércio e a indústria local para dar atenção e socorrer a população mais carente e criaram 3 instituições para ajudar esse povo: a SIAN – Sociedade Ijuiense de Amparo aos Necessitados, focando mais a velhice desamparada; a Casa da Amizade, focando as crianças órfãs e as abandonadas; e o Patronato de Menores, que focava a juventude adolescente e pré-adolescente, ensinando-lhes algum ofício.
O Patronato de Menores foi instalado numa área rural grande, em terras junto à estrada geral, na Linha 1. Aos Padres Capuchinhos foi entregue a administração para cuidar, alfabetizar, educar e dar uma profissão aos internos. Uma missão árdua, cansativa, difícil, mas nobre e cristã. Uma das primeiras coisas foi montar uma grande horta com base nos produtos hortigranjeiros. Na época era difícil encontrar verduras. Não tinha feiras, e os poucos que tinham hortas em casa eram pequenas e para seu gasto próprio. Minha mulher, tendo nascido e se criado em Porto Alegre, onde isso sempre foi abundante, reclamava. Assim, para nós foi ótimo. Na firma, a gente tinha uma Lambretta que eu adorava pilotar e, semana sim, semana não, lá ia eu de Lambretta ao Patronato buscar alface, cenoura, rabanete, radici, beterraba e quiabo. Em 62 nasceu nossa filha Eneida Beatriz e, graças a Deus, foi crescendo e se criando forte e saudável. Ela devia ter pouco mais de 2 anos quando resolvi levá-la junto na Lambretta numa dessas tantas idas ao Patronato. A Lambretta é um tipo de moto do modelo “scooter” que tem um assoalho entre o assento e o volante, e uma criança pode ir ali, em pé, segurando-se no painel e apoiada entre as pernas do piloto. Na época não se usava capacete. E lá fomos nós.
Esta história é uma história comum, familiar, não tem nada de excepcional, e qualquer um que a leia e tenha sido pai lembra da forma que criança fala. Lembro-me do médico Dr. Pedro Bloch, que, em meados da década de 60, escreveu um livro que foi muito lido com o título “Criança diz cada uma”. Voltando à história, no meio da horta, escolhendo as verduras, chega junto de nós um seminarista com um papagaio no ombro, muito bem treinado e educado (pero no mucho), e minha filha viu ao vivo, pela primeira vez, e gritou: “pai, olha um pacaiaco”. Todos achamos graça, pois até então eu só tinha ouvido criança chamar papagaio de ‘pacagaio’, mas “PACAIACO” era inédito e rimos muito. Acabei comprando o papagaio e o colocamos dentro de uma caixa de sapatos, onde abrimos uns furos para entrar ar e luz. Na volta, a Eneida dormiu ali, em pé, e a viagem virou ‘uma guerra’. Tinha que amparar a filha no meio das pernas pra não cair e apoiar a cabecinha no antebraço esquerdo. A caixa de verduras vinha precariamente presa no assento traseiro e, em cima dela, o papagaio ia rasgando o papelão e querendo fugir. Mas, devagarito, “o mundo foi rodando nas rodas da minha Lambretta” e finalmente chegamos sem acidentes. Naquela época os terrenos na cidade eram grandes (1.000 m²) e havia muito espaço e, embora empreendêssemos uma luta constante e desigual, não se conseguia evitar a presença dos camundongos, que, na eterna perseguição, nossa pequena filha já havia visto um ou outro sendo caçado pelo pátio. Como disse antes, o papagaio era ‘educado’ e não fugia. Andava solto pelo pátio e pela casa, convivendo conosco. Um dia, minha filha, enormemente excitada, chama alto: “mãe, mãe… vem cá, O PACAIACO PEGÔ UM MINDINHOCO”… (o papagaio pegou um camundongo). Outra originalidade – criança diz “ratinho” ou ‘mundonguinho’, mas “mindinhoco” foi inédito.
Não há coisa mais linda e emocionante do que ver uma criança “surgindo” para o mundo e termos a sabedoria de “eternizar” em nossa mente esses momentos. Meu primeiro filho (uma menina) nasceu em 1962. Em 1976 o segundo (menino) e, em 1966, o terceiro (novamente uma menina). Eu tinha uma Rolleiflex e, entre 62 e 72 – quando o 3º filho já tinha então 6 anos –, tirei “milhares” de fotos acompanhando seu crescimento. Tenho-as guardadas em álbuns. Curtindo e lembrando-me deles no decorrer da vida e depois vê-los adultos e curtir novos momentos com os netos. A caminho dos 90 anos (2026), garanto-lhes que não há nada mais sublime e lindo do que ver, ouvir e curtir esses momentos.
* Luiz Carlos Sanfelice (lcsanfelice@gmail.com)
