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Lembranças que ficaram (63) – A trágica morte do Juvenal Gomes de Camargo

Juvenal, ainda rapazote, saiu lá das terras de campo da Ramada e chegou ao Faxinal (Dr. Bozano), lá por volta de 1936/7, procurando trabalho. (Foto: Imagem gerada por IA)

Por longos anos, Ijuí conheceu o casal Lourival Gomes de Camargo e sua esposa Erotildes Bós Stumm de Camargo (a dona Ero), que eram donos do supermercado MARABÁ, na esquina da rua 20 de Setembro com 19 de Outubro, que consta ser o primeiro supermercado de Ijuí. Muitos conheceram e foram amigos de sua filha Ana Maria (a Aninha), jovem radiosa, alegre, brejeira e comunicativa, que se casou com um médico e foi morar em Passo Fundo. O Lourival Gomes de Camargo era, também, conhecido como “Nenê Camargo”.

Pois nossa história começa por aí. O “Nenê Camargo” era filho do “seu” Chiquinho Camargo, que morava no campo, a caminho de Santo Augusto, na localidade então chamada “Ramada”, local onde a Coluna Prestes travou sangrento tiroteio. Pois “seu” Chiquinho tinha um outro filho, um pouco mais velho que o “Nenê”, chamado Juvenal. O Juvenal, homem trabalhador, valente e destemido, não rejeitava tarefa nem “corria de touro brabo”, domava cavalo xucro e enfrentava “chibarro” metido a valente.

O Juvenal, moço em idade de tomar seu rumo, ainda rapazote, saiu lá das terras de campo da Ramada e veio para os lados das terras de mato (de colônia), e chegou ao Faxinal (Dr. Bozano), lá por volta de 1936/7, procurando trabalho. Meu avô paterno, Giusepe (José) Sanfelice, era forte comerciante e agricultor, com uma grande “Venda” perto da sede da vila, e deu emprego para ele, pois, além da “venda”, tinha matadouro e carneava porco, fazia banha, salame, queijo, nata, presunto colonial e tinha a “bicharada” para cuidar. E Juvenal era bom, honesto e responsável. Em 1938, meu avô morreu, meu pai herdou o negócio, casou-se ainda nesse ano (em Porto Alegre) e, em julho de 1939, eu nasci.

A família de minha mãe morava em Porto Alegre – na Alberto Bins – e, pouco antes de completar 1 ano (julho de 1940), minha mãe veio para passar meu 1º aniversário com minha avó materna, então viúva de João Batista Bós Filho, que fora rico empresário em Ijuí (nome atual do aeroporto de Ijuí). Minha mãe, além de me trazer para passar uma temporada com minha avó, havia deixado muitas amigas em Porto Alegre, pois estudara no Instituto de Belas Artes e, assim, queria mostrar o filho às amigas. Poucos dias depois do meu aniversário de 1 ano, meu pai, minha mãe e eu voltamos de avião (o pequeno Junkers PP-VAF, monomotor da VARIG, conhecido como Santa Cruz, que fazia a linha PoA–Sta. Cruz–Cruz Alta). O “baú” com todo meu enxoval e roupas de bebê seria despachado de trem e, dentro dele, vinha, também, o meu “Livro do Bebê”, com os registros até então feitos, inclusive listando as amigas de minha mãe que estiveram no meu aniversário. O avião pousava em Cruz Alta e, daí até o Faxinal, o motorista da firma veio nos buscar com o Ford 29.

Assim, dias depois, meu pai mandou o Juvenal ir de “aranha” até a casa do “tio” Lourenço Antonello, lá na Estação Faxinal, para buscar o tal baú que veio de trem. Cedinho, pela manhã, ele foi. Nesse percurso (até hoje), nessa estradinha, tem-se que atravessar o Rio Potiribú. Logo após passar a ponte, o tempo começou a “fechar” e não demorou: “desabou” uma enorme tempestade. Mas o Juvenal prosseguiu viagem.

No mesmo dia, logo depois do almoço, saiu o sol, ele carregou o baú na aranha e iniciou a viagem de volta. Quando chegou de volta ao Rio Potiribú, por causa da chuvarada, a água estava passando por cima da ponte. Ele ainda parou, conversou com um morador pouco antes da ponte e decidiu que podia atravessá-la. E foi…

Mais ou menos na metade da travessia (ponte sem guarda), a correnteza ficou mais forte e acabou arrastando a “aranha”, com cavalo e tudo, e caiu da ponte na correnteza… Logo adiante, não distante, rio abaixo, tinha (tem até hoje) a perigosa, mas muito linda Cascata das Andorinhas…

No dia seguinte, chega na casa do meu pai, completamente nervoso, o “morador da ponte”, avisando da tragédia… Foi uma consternação geral.

Meu pai e dois empregados rumam para a ponte. A água já havia baixado, e saíram à procura e, no meio de um matagal meio rasteiro, encontram a “aranha” com o cavalo morto, ainda com os arreios, e, uns metros adiante, o corpo do Juvenal, enroscado nuns galhos. Sob forte abalo e tristeza, todas as providências legais foram tomadas para dar ao Juvenal um honrado velório e enterro… Mas e o “seu” Chiquinho (lá na distante Ramada)? Tinha que ser avisado.

Não se sabe como nem quem avisou… mas, no meio da manhã seguinte, o “seu” Chiquinho apareceu no velório e, embora tenha chorado copiosamente a prematura morte de seu jovem filho, como uma fortaleza de fé e resignação, sentia-se honrado em saber que o filho morrera lutando e cumprindo seu dever. O baú com minhas coisas foi recuperado intacto e, de dentro dele, o meu “Livro do Bebê”, que agora, com 86 anos, guardo-o com imenso carinho e valor sentimental.

Não conheci o Juvenal, mas, com respeito, faço deste artigo o registro de minha homenagem e meu agradecimento a ele. Obrigado, Juvenal.

* Luiz Carlos Sanfelice (lcsanfelice@gmail.com)

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