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Lembranças que ficaram (65) – túmulos e cemitérios de campanha

Hoje, em pleno século XXI, esses mausoléus assumem um novo significado. (Foto: Reprodução)

O Pampa gaúcho não é apenas um espaço geográfico marcado por campos abertos e horizontes amplos. Ele é, antes de tudo, um território de memória. Cada coxilha, cada caminho antigo e cada construção isolada no meio do campo guarda marcas profundas da formação histórica do Rio Grande. Os mausoléus espalhados pelas regiões de São Gabriel, Bagé, Dom Pedrito, Pinheiro Machado, Piratini e por campos a fora, são expressão direta dessa relação singular entre o homem, a terra e o tempo.

Em função do meu trabalho conheci e visitei todo o interior do RS, SC e PR. e de boa parte do Brasil. Mas nada mais lindo, pitoresco, meditativo e singular do que o Pampa Gaúcho. Comecei a observar e logo me chamou a atenção na forma de curiosidade e interesse, a quantidade de Mausoléus e Túmulos solitários que de repente surgiam na paisagem do campo, lá, quietos, isolados, no alto de uma coxilha, como que um vigilante de uma história a observar o campo desde o nascer ao poente do Sol, dia após dia.

A ocupação do território, a consolidação das estâncias, os conflitos políticos, as disputas de fronteira e os embates ideológicos marcaram profundamente a região. O campo era o centro da vida, da produção, da convivência e, muitas vezes, também da despedida final.

Estancieiros, líderes locais, figuras políticas, militares e personagens de influência regional eram, frequentemente, sepultados em suas propriedades ou em cemitérios familiares próximos às estâncias. Ser enterrado na terra onde viveu significava permanecer ligado à querência mesmo após a morte fortemente vinculada à noção de honra e pertencimento. O mausoléu, eterniza a memória de quem teve relevância, transformando, assim o túmulo em monumento a memória familiar, o sobrenome, a linhagem e a história pessoal tinham grande valor simbólico funcionando como um marco permanente dessa continuidade e testemunhando uma época em que o campo não era apenas espaço de produção, mas também de raiz profunda.

Hoje, em pleno século XXI, esses mausoléus assumem um novo significado.

Eles não são só locais de sepultamento, mas patrimônios históricos que ajudam a compreender a formação social do Rio Grande. Cada cruz, cada inscrição desgastada, cada detalhe arquitetônico carrega informações sobre valores, crenças e modos de vida que moldaram a identidade gaúcha.

A presença de animais típicos do Pampa ao redor desses monumentos, como o gado pastando ao longe, o voo dos quero-queros ou a passagem silenciosa de animais silvestres, reforça essa ideia de continuidade. O campo segue vivo, produtivo e em movimento, enquanto os mausoléus permanecem como âncoras do passado, lembrando que a história do Rio Grande foi construída ali, passo a passo, geração após geração.

O lindo e triste, mas verdadeiro poema de nosso querido payador Jayme Caetano Braum – Cemitério de Campanha – conta à todos nós uma realidade enterrada que a ponta de cada cruz nos revela, conta e nos faz entender por que existem tantos mausoléus no Pampa gaúcho e sua relação entre memória e território. É reconhecer que, para o gaúcho, a terra não é apenas cenário, mas parte da própria identidade. E cada túmulo, jazigo, mausoléu ou memorial, daqueles que por pobreza não tiveram uma cruz ou aqueles que não quiseram uma cruz eu olho esses monumentos não só com respeito a quem lá está enterrado, mas com devoção e apreço pela história e todo simbolismo nele contido na formação da nossa “Querência Amada”.

* Luiz Carlos Sanfelice  (Contato: clsanfelice@gmail.com)

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