O discurso de Lula na convenção do PT não trouxe nenhuma novidade: mais do mesmo, uma especialidade do presidente. E nem se diga que está errado. Revela coerência, e ao insistir nas narrativas, reforça-as; não se perde em divagações pouco compreensíveis ao grande eleitorado.
Por que ele iria gastar tempo falando da crise fiscal, do equilíbrio das contas públicas? Isso não dá voto. Quem quer saber disso é a Faria Lima, os empresários, a imprensa tradicional.
Lula não falou de ajuste fiscal ou do aumento da dívida do estado brasileiro, entre outras razões porque nunca acreditou que esse seja um assunto dele ou do seu governo. Esse assunto é do futuro remoto e a Deus pertence.
Na metade de sua fala na Convenção, o presidente falou da sua obra, de suas realizações, exaltando a si mesmo e ao seu governo, o atual e os anteriores. Lula às vezes é contraditório, mas a descrição das conquistas que ele promoveu, das benesses que ele concedeu, é em geral verdadeira, e ele discorre com desenvoltura, noves vezes fora um comum exagero. Mas qual o governante que, falando de si e do que ele foi capaz de realizar, não exagera?
Fato: o rol dos avanços que ele propiciou é notável, principalmente daqueles que beneficiam as classes subalternas, os mais carentes, os mais necessitados e pobres. Não é à toa que o seu eleitorado mais fiel está localizado nas áreas mais depauperadas do país, como o Nordeste, e nas periferias pobres das grandes cidades.
Não poderia faltar uma afirmação vigorosa de nossa soberania, depois dos ataques aloprados de Milei e de Donald Trump. Aí, Lula deita e rola, enquanto os adversários da direita se perdem nas suas patacoadas quase infantis – os “patriotas” parecem ter mais apreço pela América de Trump do que pelo interesse nacional.
O “nós contra eles” transpareceu naquele terreno em que Lula é (também) mestre: atribuir a culpa do que não foi possível fazer aos outros. Sim, falta muita coisa. E as pessoas sentem mais o que lhes falta do que se lembram do que têm e usufruem.
O presidente sabe que uma boa parte dos benefícios que ele trouxe já foram, por assim dizer, incorporados ao inconsciente da coletividade. O beneficiado tende, com o tempo, a achar que foi ele próprio o autor de sua melhora – ele, não os outros, não os governantes; ele com o suor do rosto galgou alguns degraus e não vai ficar a vida expressando gratidão.
E quanto ao que falta fazer, a solução é simples. Foi o Congresso que não deixou, foi a imprensa que não noticiou direito, foram as elites que torceram o nariz e desviaram o olhar. Há uma conspiração para desmerecer aquele que tanto fez pelo povo.
Mas ninguém perde por esperar. É preciso tempo para fazer tudo. É preciso um quarto mandato para completar a obra.
Por exemplo, depois de anos no poder e no governo, ele e o partido fracassaram em implementar no país uma educação pública e gratuita e de qualidade, a antiga promessa, desde 2003, que nunca chegou a ser cumprida.
Mas Lula pede que aguardemos – é no quarto mandato que ele fará a revolução na educação. E como se pode ver nas pesquisas ainda há muita gente que acredita na parolagem.
(titoguarniere@terra.com.br)
