O presidente Luiz Inacio Lula da Silva (PT) chega à disputa pelo quarto mandato em um cenário mais apertado do que qualquer uma das três eleições presidenciais que venceu. Com pouca vantagem sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno, ele teve de recorrer a um “pacote de bondades” questionado pelos seus adversários pelo impacto fiscal das medidas, como o reajuste do Bolsa Família, e a um intensivão de viagens e entrevistas, nesta reta final, de olho tanto em seu público cativo como nos indecisos.
Como principais desafios, a campanha petista segue tentando mostrar o impacto positivo das atuais medidas econômicas para o dia a dia da população e procura um discurso que “traga esperança”, em meio a questionamentos sobre quais novidades Lula poderia trazer se for eleito pela quarta vez. Em um possível segundo turno, o PT continuará focando na comparação entre biografias e tentará trazer a gestão do pai de Flávio, o ex-presidente Jair Bolsonaro, para o centro do debate.
Mas os petistas não escondem a preocupação. A vantagem de 21 pontos, registrada na primeira vez que Flávio foi sondado em pesquisas, em agosto de 2025, caiu para cinco (39% a 34%) na amostra, divulgada segunda-feira (28) pela Quaest. Nesse meio tempo, o senador foi confirmado como herdeiro político de Bolsonaro e o governo enfrentou escândalos envolvendo pessoas próximas do presidente, além de uma crise institucional no Supremo Tribunal Federal (STF).
Embora, publicamente, o presidente tente se mostrar confiante, é consenso no entorno lulista que, seja qual for o resultado, será apertado. Por outro lado, dada a melhora recente, articuladores voltaram a ver como improvável uma vitória de Flávio já neste domingo (4).
Frente ao crescimento do adversário, diversas “bondades” foram lançadas para tentar romper o teto que Lula vinha registrando nas pesquisas, a despeito das críticas de uso da máquina pública. A 17 dias do primeiro turno, o governo anunciou um reajuste de 15% no Bolsa Familia, para R$ 691, que será pago a partir de outubro, antes da segunda etapa eleitoral. Também concedeu subvenção aos combustíveis para tentar frear a alta dos preços nos postos de gasolina, resultado do aumento internacional do valor do petróleo, medida prorrogada até o fim do mês.
Na tentativa de se equilibrar entre a Presidência e a candidatura, o petista se voltou também ao endividamento das familias – fator detectado pela campanha como uma das principais preocupações do brasileiro hoje – com novas versões do programa Desenrola, uma lançada em maio, outra em setembro. Nessa área, passou ainda a atacar o uso do cartão de crédito, chamado de “desgraça” por ele em discursos, e determinou a proibição das apostas online no Brasil, por meio de medida provisória (MP), na semana passada.
Foi uma iniciativa considerada ousada por pessoas próximas, que alertavam para o risco de judicialização da questão, mas foi balizada por pesquisas realizadas por seus estrategistas. A medida visou o eleitorado feminino e a população cristã.
Levantamento feito pelo Valor aponta que o pacote alcança perto de R$ 270 bilhões em recursos movimentados neste ano, entre crédito subsidiado, expansão de benefícios, desonerações e subsídios.
Mas as “bondades” foram consideradas um respiro pela chapa em meio a meses turbulentos. Quando o filho do presidente Fábio Luís da Silva, o Lulinha, e o ex-chefe de gabinete Marco Aurélio Ribeiro, o Marcola, foram citados no escândalo do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), a campanha sentiu o baque, mas percebeu que precisaria se antecipar para a possibilidade de a corrupção se tornar um dos temas centrais da disputa. E passou a traçar estratégias. Eles não haviam se preparado, no entanto, para a crise no Supremo Tribunal Federal (STF).
O entorno de Lula foi pego de surpresa com a revelação da suposta ligação entre o ministro Alexandre de Moraes com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, e o mandatário se viu em uma situação de difícil saída: tentar afastar sua imagem da do magistrado, algo reforçado pela oposição, ou ampliar a crise institucional em um outro Poder. Além disso, se criticasse o ministro, corria o risco de desqualificar seu trabalho no processo que debelou a tentativa de golpe de Estado do dia 8 de janeiro e condenou os envolvidos no caso. (Com informações do Valor Econômico)
